O Monstro Difuso





PROÉMIO SOBRE O MONSTRO DIFUSO

Cale-se de Pessoa o abstruso Mostrengo
Que chiava sobre as naus de D. João II
 Sou eu o Monstro-mor e mais horrendo
   O derradeiro Monstro que paira sobre do mundo!

Leonel Santos, Lisboa, Julho de 2014


O MONSTRO DIFUSO


Nascido algures na bruma de outras eras
Diferente  eu sou de todas as quimeras
De todos os dragões alados do Levante
De olhos sanguíneos e boca flamejante
De todas as serpentes astutas, infernais
De lendas bolorentas e ancestrais
Da Hidra de Lerna de cabeças várias
De todos os mostrengos e todas alimárias.
Não sou delírio vão, nem grito de profetas
Nem génio de pintor, nem sonho de poetas
Mas sou realidade…e impossível
Será que exista outra mais terrível…
Meus braços, invisíveis e diferentes
De todos os monstros e todos os viventes
São os vossos braços…e vos digo mais
Ando com as pernas com que vós andais
Depois que percorri os séculos um a um
Cheguei enfim aqui… a lado nenhum…
Tive pais, padrinhos e parentes
Sou filho de sábios, génios e valentes
Usei chapéu alto e usei gravata
Fui socialista e fui fascista, fui padre e fui pirata
Esclavagista e liberal, anarquista e democrata
Meu nome não importa, minha missão é esta
Sou do mundo a derradeira besta
A Lei morreu, a Ordem se esfumou
E a Nova Ordem é a desordem que eu sou
A Abstracção total, o Crime do mundo
O pântano e a voragem onde me afundo
A miragem doirada de toda a podridão
O Tartufo supremo da Civilização.
A tragédia que avança…o Lamaçal
A flor sublime da estrumeira global
Para mim paz e guerra são iguais
Dar-vos-ei a que achar que vale mais
E caso valha mais a gente morta
Que morra quem morrer que eu não me importa
Arrancarei olhos, rins e corações
Para vender em troca de milhões
E em troca de milhões farei também
A Justiça e a Lei que me convém
Lançarei no lixo o pão que não se come
Enquanto for matando o mundo à fome
A corrupção será sempre o meu estandarte
A minha vida, a minha força, a minha arte
Depois que reduzi o mundo à escravatura
Vos canto a liberdade, o progresso e a fartura
Porque também a minha linguagem
Serve os meus interesses e traz a minha imagem
Mas tudo o que  eu prometo são cantos de sereias
Porque só a guerra me percorre as veias
Esse monstro que devora os inocentes
São as minhas garras, a força dos meus dentes
É o desespero de um monstro condenado
A morrer matando quem não é culpado
Farei prostitutas e drogados aos milhões
Porque eu próprio sou a droga das nações
Nações que no fundo não passam de utopia
Porque não há fronteiras na minha hegemonia
Sou eu o desespero que cada um transporta
A vida desiludida que já nasce morta
Sou eu o terrorismo, a última invenção
Dos génios do Mercado p’ra minha salvação
Sem terrorismo, anti-terrorismo, crime e guerra
Não posso eu, um minuto mais, habitar a Terra
Não sou americano, nem árabe, nem judeu
Não sou homem-bomba, nem crente, nem ateu
Sou apenas eu e, ninguém mais forte
Poderá deter-me a não ser a morte…
Até na paz breve que a vida vos consente
Farei eu morrer milhões de gente
Porque eu sou a morte e não sou a vida
Sou o aborto, o anti-aborto, a pedofilia e a sida
O desemprego e a falência, a insegurança e as prisões
Os Tribunais, o Direito, a Justiça e os Ladrões
E sou ainda na gíria universal
O Iluminismo, a civilização e a Moral
Sou ainda o fogo que vos leva gados, casas e floresta
Não posso mudar nunca, a minha sina é esta…
Sou a Democracia, sou a Modernidade
Sou o Crime, o Cinismo, a Caridade
Sou o Mercado e o Dinheiro... Sou o Valor
Não tenho pátria, nem raça, nem cor
Todos os deuses, antigos e modernos
Todos os paraísos e todos os infernos
Pobres e ricos, palhaços, presidentes e reis
Têm um valor…e esse Valor são as minhas leis
Nada tenho de humano, sou cego, surdo e mudo
Indiferente á dor, à guerra, à morte, a tudo…
Sou o Dinheiro-deus … «abstracção real»
Que transforma em besta cada racional!

Leonel Santos,
Lisboa, Março de 2004

A COMÉDIA DA TRAGÉDIA

A COMÉDIA DA TRAGÉDIA



De Abril a Março


Um dia ao sol de Abril alguns pavões

Se exibiram grasnando em altos brados

Que a pátria estava cheia de ladrões

E não dormiam com pena dos roubados



Com esta grasnada redentora

Abutres a fugir em debandada

Caíram os pavões na mesma hora

Em cima da carcaça abandonada



E abrindo a longa cauda e a plumagem

Enfunando com grande galhardia

Rufavam catadupas de coragem

E cada um por si mais prometia



Havia liberdade a tuta-e-meia

E direitos humanos a pataco

A democracia então era à macheia

E quem quisesse podia encher o saco



As coisas que eram caras sem razão

Passariam em seguida a ser baratas

E com o "direito sagrado" à habitação

Punham a casa ao preço das batatas



Mas depois, pouco tempo era passado

E quase sem ninguém se aperceber

O bico dos pavões ficou curvado

E as unhas começaram-lhe a crescer



Soube-se já no fim desta disputa

Que os ditos pavões não eram mais

Que outra espécie de abutres mais astuta

A disputar a presa aos seus iguais



Cresceu assim impante e agitado

O Portugal moderno e abrilento

Com brigas e barulho em todo o lado

Que todos queriam à uma ir lá para dentro



Ouvir falar de Abril era um encanto

Nunca ninguém ouvira assim falar

Que nenhum aldrabão aldrabou tanto

Antes dos abrilentos cá chegar



Até que de Paris chegou então

O maior abrilento lusitano

Espécie de D. Sebastião

Verbo guerreiro e alma de cigano



A língua afiada e nada presa

O discurso meloso, apadralhado

E muito não tardou que sua alteza

Fosse ocupar o trono abandonado



A partir desse dia o Zé Povinho

Não tinha Portugal amordaçado

Era livre como um passarinho

E o pão nunca mais foi aumentado



A fartura subiu a tal altura

Que quase não se queria acreditar

E a liberdade também, tudo à mistura

Como podemos hoje constatar



Foi assim que a vida em Portugal

Se tornou neste sonho encantador

Somos em corrupção o principal

E na droga não se pode estar pior



Na prostituição temos progresso

Com leis sabichonas e modernas

E não parou mais de haver sucesso

Para quem ganha a vida abrindo as pernas



Nas estradas, nos campos e nas matas

Nas ruas, nas esquinas da cidade

Vendem-se brancas, pretas e mulatas

Porque abril trouxe a liberdade



E depois deste progresso, sabiamente

Temos ainda em SIDA a primazia

Passamos a Europa toda à frente

Inclusive a Grécia e a Turquia



De Março a Março

Abril foi um sonho derradeiro

Sonho tardio, infantil e vão

Com que sonhara o mundo inteiro

Antes de acordar da sua hibernação



O sonho deixou hoje de fazer sentido

Quem sabe o porto onde vai parar

Quando pilota um barco de leme partido

Ouve rugir o vento e vê crescer o mar



Na surrealidade cega e soberana

Quem pode imaginar um futuro risonho

Quando no topo da ganância humana

O futuro é nada e o real é sonho



O Deus-Mercado, deus-globalizado

É agora o rei deste sistema vil

Rei do petróleo a bem do mercado

Rei do mercado a bem do barril



A carnificina cega da mercancia

Não perdoa mais nem se compadece

A guerra é lucro e nesta circunstância

Rebentando bombas o Mercado cresce



Todo o sonho antigo se evaporou

As manhãs que cantam, o ir mais além

Sonha hoje quem não acordou

Acordado não sonha agora ninguém



Chegamos ao fim duma longa estrada

O rei vai nu mas ninguém o diz

A demagogia, velha e desgraçada

Devora-se a si própria de tão infeliz



Morreu o progresso, esse galo canoro

Que há mil anos canta em cima da estrumeira

Há no ar um cheiro de muito mau agouro

A barbárie antiga que tão mal cheira



A obra-prima, a civilização

Dos grandes heróis e dos grandes santos

É esta gangrena de corrupção

Podridão e droga por todos os cantos



É a guerra, assaz, divinizada

Em nome da paz e da filantropia

É a humanidade aos milhões queimada

Ou morta à fome aos milhares por dia



No jargão cego e surdo do Mercado

O crime passou a feito de heroísmo

A morte e a vida tudo é contado

Na base dos lucros do Capitalismo



Do outro lado, mas qual lado?

Dizem os sábios ... mora o Terrorismo.



Leonel Santos, Fevereiro 2003

O ÚLTIMO DOS DEUSES

O ÚLTIMO DOS DEUSES



Bombas e Droga (III)

1

Depois do rendimento de milhões

Com bombas progressistas e aviões

A Civilização gloriosa

Tem esta genial mercadoria

Ao serviço da lei da mais-valia

E do Novo Mundo cor-de-rosa

2

Bombas, guerras, droga, tudo, enfim

Vai transformar a Terra num jardim

E dá cada dia novos passos

Gente pobre, gente morta ou gente viva

O Mercado usa a mesma estimativa

A todos estendendo os longos braços

3

Se o drogado é mercadoria

Tem um ciclo a cumprir, uma valia

Até que outro tome o seu lugar

E as bombas vão caindo em qualquer lado

Conforme são precisas ao Mercado

Que não pode viver se não matar

4

Se a máquina superou o seu valor

Entenda o antigo produtor

Que é consumidor mas não é gente

E que na bitola do Mercado

Não é mais nem menos que o drogado

Comprar droga ou pão não é diferente

5

É preciso consumir, consumir sempre

Correr cada vez mais, cega e loucamente

Sem meta, sem destino e sem estrada

Porque a sociedade mercantil

É esta corrida, louca e imbecil

Febril e infinita atrás do nada

6

E como a droga traz altas receitas

Ela é o deus das mafias e das seitas

Das religiões e dos Estados

E as benfeitorias sociais

Como as carraças nos irracionais

Agarram-se às misérias dos drogados

7

E por absurdo do Mercado

Até não há drogado ou viciado

As drogas são doenças naturais

E assim há doenças e não vícios

A justificar os bons ofícios

Das piedosas pragas sociais

8

Por trás da prevenção fantoche dos Estados

Há sempre mil barões e ricos instalados

À custa dos drogados, escravos actuais

Que após serem presa de falcões

Se afogam na lama de instituições

Com nomes sonantes e gula de chacais

9

Assim o drogado serve duplamente

No campo aberto, o falcão e a serpente

E o voraz abutre, por fim, num lar fechado

Não foi feito para servir leis

É tesouro de padres, de doutores e reis

É o ouro fino do novo Mercado

10

Almas piedosas, doces, solidárias

Associações, igrejas, seitas várias

Penduradas nos cofres estatais

Arrancam aqui a última fatia

Desta genial mercadoria

Que é depois da bomba o que vale mais

11

Na sua lei cega, o Mercado brama

Que se acenda a Guerra ou se apague a chama

Com a frieza da pedra das montanhas

Cruel e absurdo, este Adamastor

Vai connosco onde a gente for

Cavalga a força das nossas entranhas

12

O Mal e o Bem não serão jamais

Inimigos velhos e mortais

À luz do valor e do Mercado

A diferença só consta do dinheiro

Se a bomba vale mais do que o carneiro

A bala vale menos que o drogado



Lisboa, Junho de 2002

Leonel Santos

O ÚLTIMO DOS DEUSES

O ÚLTIMO DOS DEUSES

O Mercado (I)

Eis o deus-supremo, O Deus-Mercadoria

Valor único na vida, árida e vazia

Foram-se os salvadores, morreram as quimeras

Os sonhos grandes e ocos de outras eras

O Deus-Mercado, único e global,

É agora o grande deus universal

Ricos e pobres, crentes e ateus

Se curvam e rojam a este grande deus

Eis a herança sagrado-profana

De heróis e génios da espécie humana.

Tudo se afundou na doce fantasia

Que um sistema irracional e cego prometia

Toda a luta inglória por um mundo diferente

Ajudou este deus pançudo e decadente

Hoje há Mercado e consumidores... Morra de fome

E morra depressa, que não interessa, se não consome

Para e pensa humanidade insana

Que foi o pensamento que te fez humana!

Eu ouço ao longe ó louca Humanidade

Um grito, um som, talvez seja a Verdade

Talvez o desespero, eu não sei bem

E profetas agora o Mundo já não tem.

Onde param os heróis, os sábios, onde estão

Os valores a que chamais a civilização?

Onde está a Lei, a Justiça, a Glória

E a Paz onde está, esse mito da História?

Só o Deus-Mercado, absurdo e global

Reina nos escombros dum mundo irracional

Não há mais paz - acabou - nem justiça, nem nexo

Há guerra e armas, há droga e sexo

A Guerra tornou-se um valor permanente

Porque o valor, se torna maior, matando mais gente.

Viva o Drogado, que a bem do Mercado, é outro valor

Viva este ente, se já não é gente é consumidor.

Mulheres e crianças, tudo se vende, a bem do Mercado

O deus papa-gente, absurdo, inclemente, mas civilizado.

A Guerra tornou-se o grande primado à face da Terra

Porque o Mercado, deus desgraçado, não vive sem guerra

Aquele Terrorismo que aponta o abismo, quem é? Não sabeis

Pois é o Mercado, que já desesperado, não usa mais leis.

Meio globo morre de fome, não vive, não come, que hipocrisia

Do outro lado estoira o Mercado, porque não vende mercadoria

Eis as regras duras e cegas, do super-mundo civilizado

Toda a desordem da Nova Ordem do Deus-Mercado.



Lisboa, Maio de 2002

Leonel Santos

OS PERIGOS DA PAZ

OS PERIGOS DA PAZ



A paz é um perigo permanente

Que o Sistema em si nunca tolera

Porque o Sistema em paz é uma quimera

Que a todo o raciocínio é evidente



Por isso a guerra investe em armamento

Para poder manter a paz ausente

E empregando vai milhões de gente

Enquanto a paz emprega zero por cento



E agora que o trabalho feneceu

E o emprego ficou mais disputado

O perigo da paz ainda cresceu

Porque não dá emprego em nenhum lado



Todos dizem que lutam contra a guerra

Mas isso só se diz e não se faz

Porque a paz está feita sobre a Terra

A guerra é que não deixa haver a paz



Mas a paz é um perigo permanente

Por muitos mais motivos e razões

Não dá ordenado nem patente

Nem vende armas e bombas por milhões



Se bem que nos tempos actuais

A guerra haja feito mais progressos

A paz e o Sistema são avessos

E os valores da guerra são vitais



O terrorismo é neste sentido

Um grande passo em frente contra a paz

Mas é preciso agora ser mantido

Para a guerra não andar p'ra trás



Da cirúrgica-bomba à nuclear

Da bomba-inteligente ao "predador"

Todo esse humanismo exemplar

Que a Civilização tem ao dispor



Terá de estar atento e ser ligeiro

Porque a paz é perigosa e aliás

As armas todas rendem bom dinheiro

E vendem-se com guerra e não com paz



Eis o absurdo, a utopia

O mito do Sistema e a aparência

A Civilização parindo a barbaria

O Progresso parindo a decadência



A obra-prima da mitologia

O futuro das gentes que pisam a Terra

A doença, a fome e a guerra

Tudo transformado em Mercadoria



Lisboa, Novembro de 2005

Leonel Santos

ARGÉLIA

ARGÉLIA

A DITADURA DEMOCRÁTICA

Naquela terra doce e bestial

Reinava a democracia

O povo trabalhava, é natural

E o resto, passeava e comia



Rezava-se ao Alá que é um senhor

Que ajuda o que passeava a passear

E também com carinho e com amor

Ajuda o que trabalha a não parar



Este Alá é o mesmo que o "Há cá"

Que ajuda o que não pode a não poder

Mas é da democracia, para já

Aquilo que hoje tenho para dizer



Esse maná, que aqui no Ocidente

Abunda e tem caído em doses tais

Que qualquer democrata não desmente

Que só no outro mundo existe mais



Mas seja como for, a tal gentinha

Lá ia vivendo e rindo o dia-a-dia

Tinha corrupção sempre fresquinha

Que é o motor de tal democracia



E se às vezes uma Câmara do Alá

Lhe arrasava a barraca onde vivia

Como faz a Câmara do "Há cá"

A malta protestava mas comia



Embora não chegasse o ordenado

E a fome fosse dura e atrevida

Ninguém vivia ali desanimado

Tinha a democracia garantida



Em nenhuma selva de certeza

A vida era mais doce e encantada

O que tinha mais poder e mais esperteza

É que era sempre o chefe da manada



Mas como o democrata é cem por cento

Avesso em questões de ditadura

Convocou eleições p`ro Parlamento

Não se fosse estragar tanta fartura



Porém, o povo ingrato e atrasado

Quando chegou ao dia de eleições

Não quis votar nos bons, este "Malvado"

E acabou por ir votar pelos ladrões



Só que a democracia sendo boa

Nunca seria parva com certeza

Nem reinava portanto ali à toa

E no jogo que fez, pôs-se à defesa



Então o democrata de serviço

Que por acaso era um militar

Vendo contra ele o seu feitiço

Mandou chamar a tropa e pôs-se à´dar



E foi assim que a Argélia democrata

Se conseguiu livrar dos tais fanáticos

Hoje ali se prende, rouba e mata

Mas apenas em moldes democráticos



O pai e a mãe do FUNDAMENTALISMO

É o democrata astuto e corrompido

É ele que lança os povos no abismo

Depois dos Ter roubado e Ter traído



Leonel Santos(*) (Lx. 27-07-92)

Os lobos de Milosevic e os chacais da Nato

Os lobos de Milosevic e os chacais da Nato


«Então ó Nato:
Matas ou não matas?
Mato!»
A minha missão é matar, é destruir
Semear o ódio na senda do porvir.
Cortar as crianças e os velhos em pedaços
Espalhar cabeças, e pernas e braços
Por entre as ruínas de mil habitações
Reduzir tudo a chamas, a cinzas e a carvões
Numa orgia de morte e de tormento
Arrancar lágrimas, atirar ao vento
Gritos e mais gritos de desespero e dor
Eu não sou aquele Adamastor
Que ousou lutar nos arraiais das História
Aqui há cobardia...
Não há batalhas, nem luta, nem glória
Mato indefesos, famintos, desgraçados
Queimo os montes, as serras e os prados
Os filhos na barriga das mães
Os homens e os cães
As creches, as escolas, cemitérios e hospitais
Despejo os meus arsenais
Para que possa enche-los de novo e ainda
matar mais
Mandam-me os donos da CIA
As Mafias do armamento
É este mar de tormento
A minha mercadoria
Manda-me o M-16
E a Mossad judia
Faço à bomba as novas leis
Construo a Terceira Via
Queimo pontes, queimo estradas
Sanatórios, refinarias
E nas ruínas sombrias
Enterro as gentes queimadas
E para que a guerra se alongue e multiplique
Mil vezes agradeço a Milosevic
Meu amigo, meu irmão, meu aliado
Que tão boa ajuda me tem dado
Nesta nova matança cor-de-rosa
De que Hitler ficaria envergonhado
Fiz da ONU a minha cangalheira
Posso já queimar a Terra inteira
Em nome da Justiça e da Razão
Só onde houver tiranos é que não
Que um tirano não mata outro tirano
Matar gente indefesa é mais humano
Eu hoje sou carrasco e sou juiz
Hitler não passou de um aprendiz
Na arte de matar, ao pé de mim
Farei a Europa num jardim
Com bombas de napalme e com estilhaços
Sou eu que mando aí nesses palhaços
Que vão roubando e rindo e que por isso
Não podem prescindir do meu serviço
Se outrora fui mal vista e mal amada
Hoje sou "socialista" e sou civilizada
E vingo disfarçada Hitler nos Balcãs
Até que venham outros amanhãs
E as minhas bombas generosas
Façam da Europa um mar de rosas
Lisboa, Maio de 1999
Abul-Ala al-Maari

A ÚLTIMA GRILHETA


Leonel Santos - A ÚLTIMA GRILHETA



P`ra que são as eleições?

Ouço a malta perguntar...

P`ra escolher os ladrões

Que depois nos vem roubar



Nos tempos de Salazar

A malta não escolhia

Mas com a democracia

Passou a malta a mandar

Ninguém se pode queixar

Assim nestas condições

Aumentam-se dez tostões

Segundo a velha manobra

Para escolher quem nos rouba

É que são as eleições



Se acaso não está contente

E acha que foi roubado

Não fique prejudicado

Vote noutro presidente

Para o roubar novamente

Somente tem de optar

Nem vale a pena teimar

Outra sorte não lhe resta

Mas para que é que isto presta

Ouço a malta perguntar



Um melhora os hospitais

Outro aumenta os ordenados

Outro vai pelos mercados

Diz que baixa os preços mais

Outro com saltos mortais

Diz que dá habitações

E triplica as pensões...

É a hora da fartura

Falta só chegar a altura

De escolher os ladrões



Há bandeiras e balões

Passam carros à'pitar

P'ra crise não se agravar

Vão-se gastando milhões

Beijam-se as populações

E aconselha-se a votar

Todos querem lá ficar

Com pena de quem trabalha

Fala assim esta canalha

Que depois nos vem roubar



CAMINHA COM TEUS PÉS TRABALHADOR

Não te deixes levar por quem te mente

Mil vezes a ser só votador

Mil vezes não seres independente

O voto é o canto enganador

Que a última sereia canta à gente

A derradeira amarra do senhor

P'ra que o mundo não possa ser diferente

Leonel Santos (*)

Lisboa, Dezembro 1993

O COLAPSO

O COLAPSO


Morreu o trabalho, o Sistema morreu

A miséria despiu a roupa que a cobria

Rasgaram-se as nuvens que ensombravam o céu

E a luz fere a retina que a treva obstruía

Tudo o que se disse e o que se escreveu

É obra dum mundo que dantes existiu



Porque ouço eu ainda as palavras que ouvia

E vejo igual ganância e vejo igual peleja

A mesma disputa e a mesma teimosia

Políticos que berram como gente de igreja

Vendendo o mesmo Céu e a mesma hipocrisia

Quando o bem nos falta e quando o mal sobeja



Chamaram os antigos os deuses de outro mundo

Os modernos sonharam um salvador humano

Mas os deuses não desceram lá do céu rotundo

E a Terra só pariu, tirano após tirano

Até que o sonho humano acabou no fundo

Deste Sistema imundo e deste abismo insano



Ficou-nos a vergonha, além da decepção

Gravadas a fogo nas sombras da memória

Dos altos-de-fé, dos mares de escravidão

De crimes e guerras que ensaguaram a História

Sopramos os ventos da destruição

Como colher agora frutos de glória



Temos crise, mas que crise? A crise é quem?

Deixou a Terra acaso de girar?

E a luz do Sol já não sorri nem vem

Acordar as florestas para as aves cantar?

Não. O Sistem exangue já não tem

Pernas com que possa caminhar!



Que nos resta agora após a derrocada

Prosseguir na barbárie e na escuridão

Ou usar a razão que nos foi doada

Por milhões de anos de evolução

E caminhar por uma nova estrada

Feita de luz e de emancipação?



Prosseguirmos na selva já incendiada

E redobrar a guerra, a ganância, a fome

Retomar o crime, o roubo, a peste irada

Que apavora o Mundo e que o consome

E calcar a Verdade espezinhada

Que sempre usada foi com falso nome



Ou vamos acusarmo-nos mutuamente

Num Sistema feroz e sem sentido

Deixando o valor reger a gente

Quando por nós deve ser banido

E arrastar-se no chão como a serpente

E os vermes num corpo apodrecido



Onde está, me dizei, toda a grandeza

Da nossa inteligência… e o futuro

Quando à nossa frente paira a incerteza

E a nossa incerteza, chama-se o escuro

Enquanto a besta tem a luz acesa

E um buraco, talvez, bem mais seguro



Desculpem-me os mestres da Moral

E feitores desta selva emaranhada

Chamada de Sistema Social

Porque a selva da besta comparada

Com a nossa selva racional

Está bastante mais moralizada



Enquanto houver seja onde for

O osso duma presa que se roa

A sociedade rapace do Valor

Achar-se-á correcta, honesta e boa

E por ele tomada de furor

Lutará como cães, mordendo à toa



Lisboa, Fevereiro de 2009

Leonel Santos

O MOINHO II


O MOINHO II


Aqui neste monte olhando o mar
Suportando em fúria bravos ventos
Há um moinho a lutar com mil tormentos
Que eu enquanto viver me vou lembrar


Parece que inda ouço assobiar
Os búzios de barro em seus lamentos
Não me dizem, é de ver, seus pensamentos
E deixam esses sons livres no ar


Se ao menos eu ouvisse e visitasse
Aquele bom moleiro que te cuidou
Antes que a sua vida terminasse


Mas tarde minha mente me alertou
Para te apertar a mão, beijar a face
Que nunca de beijar-ma se cansou!



Leonel Santos
Lisboa, Julho 2012-07-26

O GIGANTE “VERMELHO”



O GIGANTE “VERMELHO”

Diz-nos a lenda que em tempo distante
Andou nestas ruas soberbo gigante
Que a pedra mais dura da dura calçada
Temia-lhe a bota tamanha e pesada
Lá das alturas o Sol e a Lua
Doiravam o gigante, gingando na rua
Os pombos da praça, a lenda garante
Borravam-se todos ao ver o gigante
Porém o estafermo parecia indiferente
Julgava-se um rei como é evidente
No norte e no sul havia temor
E havia ilusões naquela abantesma de falso valor
Só quem o ouviu no seu apogeu
Fará uma ideia daquela carcaça que a terra sorveu
As suas entranhas cuspiam ao vento
Milhares de façanhas em cada momento
Fazia projectos, traçava futuros
Travava combates, constantes e duros
Sou pelos mais fracos, sou pelo direito
Dizia o gigante, berrando e batendo com força no peito
Falava de esquerda com grande alarido
Em Marx e Mao, ninguém me ultrapassa, dizia o bandido
Com tanta bravata, confesso afinal
Sonhei no gigante, um ser importante e quase imortal
Sonhei digo bem, pois hoje acordado
Não vejo o gigante, nem eu nem ninguém, nem sei do seu fado
Como é que um gigante assim se evapora
Perguntam vocês que o viram outrora
O caso é diferente e bastante bizarro
O gigante era um ente com pernas de barro
E outro gigante mais alto e mais forte
Que o dorso das serras, que o reino da morte
Gigante real, obreiro e capaz
Que mostra o que vale nas obras que faz
Topou-lhe a fraqueza, quebrou-lhe as canelas
E o falso gigante não anda sem elas
E agora se alguém o vir, pois então
Há-de ver que o jagunço não passa de anão…
Duvido porém, que o vejam de novo
Gigantes são mitos; gigante é o Povo!

Leonel Santos
Lisboa, 25/4/85

Este poema não é de autoria dum associado do STL,
mas Leonel Santos, poeta popular,versa aqui um «mito»
que faz parte das «memórias» políticas de muitos colegas dos TLP.
Boletim Informativo do Sindicato dos Telefonistas de Lisboa, n.23, Janeiro de 1987.