DIÁRIO DA SELVA II (O PADRE)

DIÁRIO DA SELVA II (O PADRE)




Quem é essa abantesma que apressada

Caminha entre os andantes, rua fora

De fraldas ao vento, onde mora

Uma imagem no tempo ultrapassada

Com saia comprida e mal cuidada

De um negro profundo, cor de amora

E que promete o Céu a toda a hora

Mas apenas tira e não dá nada



A sua negrura decadente

E o seu andar desconcertado

O seu olhar desconfiado

Em nada condiz com o ambiente

Olha para o chão, não fita a gente

Que passa de um e outro lado

Como um bicho qualquer semi-espantado

Para quem este sitio é bem diferente



Tem um ar sombrio, comprometido

De quem algo deve à sociedade

E carrega aos ombros na verdade

Um passado muito enegrecido

De tanto ter pilhado e ter zurzido

A miseranda e pobre Humanidade

Não respira bem pela cidade

E caminha por isso constrangido



A sua missão é prosseguir

A missão dos seus antepassados

Mas os tempos agora estão mudados

E o tempo que foi não volta a vir

Já ninguém agora vai cair

No inferno por causa dos pecados

E os bens do Céu estão esgotados

Por o deus Valor os destruir



Com a bancarrota da Igreja

O padre se agarra a toda a presa

Às crianças, à fome ou a pobreza

E a todos os lucros que fareja

Buscando as benesses que deseja

Que pague o Estado essa despesa

Porque ninguém casa, ninguém reza

Nem deposita notas na bandeja



Solidariedades, lares, benfeitorias

Para criancinhas, velhos ou drogados

Os padres nem dormem descansados

Vendo os pobres assim de mãos vazias

E mandam rezar avé-marias

Para que eles sejam ajudados

E dêm aos santos, que coitados

Nem comem já todos os dias



Um camelo me diga, ou um jumento

Porque é que um padre vai benzer

A pasta de um estudante, que à'prender

Andou ilustrando o pensamento

Como pode haver descaramento

Para coisa tal acontecer

E como pode alguém obedecer

A tanta estupidez e fingimento



Pode o padre viver eternamente

Que o seu crime nuca se mais apagará

Foi ele quem trouxe para cá

A santíssima lei de queimar gente

E como pode agora no presente

Criticar alguém do mal que há

Quando no Mundo onde ele está

Ele mandou queimar tanto inocente



O símbolo negro da sua missão

É exibir a morte pregada numa cruz

Sem uma criança, sem um raio de luz

Como o fez a Santa Inquisição

Só depois da morte os deuses dão

Comer ao faminto e roupa aos nus

Porque a Vida ao nada se reduz

E o Céu começa no caixão



Nunca se deve usar preservativo

Nem usar anticoncepcionais

Quanto mais miséria tanto mais

O oficio do padre é lucrativo

O infantário, a creche, outro motivo

Que reuna ajudas estatais

Que o padre dá os bens morais

Para o bebé poder manter-se vivo



Quem é essa abantesma que na América

Austrália, Brasil e mais locais

Prègando andou valores morais

Como por aqui na terra Ibérica

E com essa treta cadavérica

Violou crianças virginais

Como outra besta fez jamais

Na era pré ou pós homérica.



Lisboa, Outubro de 2008

Leonel Santos

DIÁRIO DA SELVA I (A DROGA)

DIÁRIO DA SELVA I (A DROGA)




A Costa do Ouro, vem nos jornais

É actualmente a Costa a Coca

Desculpem-me as bestas se esta troca

Causando lhe está danos morais



E a costa da liamba, porque não

Porque não a costa a maconha

E a costa da nossa desvergonha

Ou de toda a nossa podridão



A mesma ganância na essência

Do ouro de Midas e de Creso

E do valor humano igual desprezo

À costa da nossa decadência



A costa moderna do Valor

Que a besta não usa nem conhece

É a vida humana que apodrece

Porque o Valor da morte é superior



A Costa dos Escravos, acho bem

O nome não ter que teve outrora

Quantas costas de escravos há agora

Como pode aqui saber alguém



A droga está na guerra e nos desportos

Na escola, na família, está na vida

A bem do seu Valor tiranicida

Quantos sonhos de vida não são mortos



O chamado progresso social

É este aviltamento e lodo insano

Este turbilhão de insulto humano

Onde só a Morte é racional



Nesta afronta imunda à sanidade

Sempre alguém se arrasta nas cadeias

Nos cantos de vilas e aldeias

E pelas esquinas da cidade



De noite e de dia há sempre alguém

Que o lucro do Mercado assassinou

Para que outro tenha o que ele deixou

Que é a vida que tinha e já não tem



Se outro crime o Mundo não tivesse

Para desonra humana era bastante

Este aviltamento reptante

Dum Sistema que a droga nos fornece



Dispôs-se que o drogado é um doente

Na solércia astuta do Mercado

Pois se acaso fosse um viciado

Não era lucrativo nem decente



Rouba o pai, rouba a mãe, rouba quem tem

O vício não perdoa é exigente

E um abutre qualquer, se ele é doente

Trata-lhe da saúde e vive bem



Foi atirado à lama pela vida

Está contra ele o mundo inteiro

Enquanto vivo for dará dinheiro

A morte que resolva e que decida



O produto moderno mais corrente

É o crime na rota do Mercado

Meio mundo vive hoje empregado

A traficar droga, armas e gente



O lucro é a meta do Valor

Um deus inamovível e feroz

Que corre noite e dia atrás de nós

Pronto a devorar seja quem for



Lisboa, Outubro de 2008

Leonel Santos

O HOMEM PREDADOR

O HOMEM PREDADOR 


Entrelaça a aranha em qualquer parte

Uma teia simples com destreza e arte

E apesar de tudo subtil e forte

Onde incauta presa encontra a morte

E assim a aranha vai mantendo a vida

 Até que um dia é também comida

E todo o animal, segundo a natureza

É simultaneamente predador e presa

Numa luta perpétua, severa, irracional

Que, apesar de tudo, ainda assim, é natural

Mas onde cada ser se ataca ou se defende

Conforme pode, ou conforme entende

Uma vez que não tem outra saída

Que lhe permita aqui continuar a vida

Assim as águias, nas altaneiras brenhas

Espreitam cá em baixo, as cobras entre as lenhas

Caçando o mourão, o gafanhoto, o rato

Que por sua vez, caçam também no mato

E na selva bruta ninguém é diferente

Comer ou ser comido é simplesmente

Continuar a vida ou ficar sem ela

Por isso é que o leopardo devora a gazela

 E o leão, o lobo, o tigre, o jaguar

 Deixam de viver se não puderem matar

Esta é a Moral da Natureza-mãe

Que o Sistema humano acolheu bem

Mas se o irracional à força bruta

Junta a experiência em prol da luta

 O Predador humano vai muito mais além

Equipado com os dotes racionais que tem

E faz o que jamais alguma besta fez

Que é matar aos milhões de cada vez

E desce mais ainda na sua predação

Matando a própria espécie, enquanto a besta não

 O seu intelecto em vez do elevar

E nobrece a besta por não raciocinar

E este Predador ainda agora

Acaba de aumentar os meios de outrora

Percebendo que a sua linguagem

Lhe podia trazer maior vantagem

 Que além de guerras brutas e sinistras

Podia usar palavras altruístas

E prègar o Bem e a Humanidade

Condições que a besta não tem capacidade

Nem como ele a arte e os motivos

Para comerciar mortos e vivos

 E no topo da cadeia alimentar

Com o queijo e a faca para o cortar

Trocou a palavra Guerra por Defesa

Para enganar assim melhor a presa

E na sua avidez seguiu em frente

Sempre atrás da besta moralmente

 Impondo velhos mitos bafientos

Cobertos na poeira de outros tempos

Quando a espada era a mãe da guerra

E o Sol andava ainda em redor da Terra

Com a teologia estulta e soberana

A jurar-nos que ela era plana

 E que um deus nos via lá do céu estrelado

Com um diabo que foi seu empregado

Falando de milhões de milagres e santos

Que apareciam na Terra por todos os cantos

Gente que morria e que depois de morta

Aparecia por cá batendo à porta

 Foi nesta altura que muitos predadores

Passaram a chamar-se bispos e pastores

Agarrados a reis e a tiramos

E a outros predadores também humanos

Queimando e calando os que disseram

As coisas tal e qual como elas eram

 E que gritam agora contra a depravação

Do Sistema que fizeram com a sua própria mão

Porque os velhos mitos já não trazem oiro

Nem carne de porco, nem chouriço moiro

Nem galinhas gordas, bom vinho e bom pão

Talhas de azeite e meio-alqueires de grão

Presa dum Sistema sem freio e sem medidas

A predação humana é o velho Midas

E as suas presas as peças de um tesoiro

Que dia a dia querem fazer em oiro

Alquimista velho de sonhos infantis

Manipulador boçal de metais vis

Ilusório ente dum sonho passado

Ontem no Trabalho, hoje no Mercado

O Sistema foi sempre o deus da lenda antiga

Com os olhos maiores do que a barriga

Mas ao invés da teia da pequena aranha

Que surpreende e prende a presa que apanha

O Predador humano caiu e se prendeu

No próprio fio da teia que teceu

Cego do Valor e cego da Grandeza

Acabou passando de predador a presa

Presa de ele próprio, caduco e incapaz

De andar em frente ou de voltar atrás

Debate-se agora como um pequeno insecto

 Preso no perverso Valor do seu projecto

Autófago Valor, insano, irracional

Contra o qual agora nada pode e vale

Vendo fugir-lhe a vida e fugir-lhe a espécie

E revoltar-se a Terra onde a Vida cresce

Num rumo abrupto e adverso à Paz

Com o Mercado à frente e a Guerra atrás

Derradeiros e vis escravos do Valor

Que é deveras do Mundo o Predador.

Quem sabe a besta silenciosamente

À noite, lá na selva, não se ri da gente!



Leonel Santos

Lisboa, Setembro 2008

DO FETICHE

DO FETICHE


Aquele fetichismo que fez jus

À sapiência antiga dos tiranos

Dispersa em tempos como luz

Na mente primitiva dos humanos

Ainda nos persegue e nos conduz

Apesar de passados largos anos



Hoje com o nome diferente

De Civilização alta e pomposa

Esse fetiche velho descendente

Dessa era antiga e fabulosa

Nos dirige ainda infelizmente

Na mesma via cega e tortuosa



Se a nossa longa caminhada

Nos parece engenhosa e sapiente

Se usamos a lança e a espada

E temos hoje a bomba-inteligente

No fundo não andamos nada

Só fizemos a morte andar em frente



As bombas que temos e granadas

Os mísseis, a espingarda e o canhão

E outras armas mais sofisticadas

Com que se faz da morte o ganha-pão

São apenas peças destinadas

A pôr o lucro acima da razão



A Civilização que apregoamos

É uma selva densa e insegura

Onde nos vendemos e compramos

Escravos da oferta e da procura

E os próprios braços que ofertamos

Os não quer a nova escravatura



Atolados num Sistema mais impuro

Que o dos próprios seres irracionais

Sem termos passado, e o futuro

Não sabemos se ele existe mais

Gritamos louca mente no escuro

Que somos reis dos outros animais



A África resistente á escravidão

E á humilhação colonial

Sufoca agora á destruição

Á fome e á doença civilizacional

Porque a suposta Civilização

É a fase aguda do seu velho mal



Pelos quatros pontos cardeais

Batida pelos ventos a humana galé

É um barco velho sem leme nem arrais

Sem saber onde vai nem saber quem é

Tentando lobrigar um fabuloso cais

Com a cegueira à proa e o abismo à ré



E se o Mercado tem continuamente

De ultrapassar barreiras e fracassos

Se é preciso haver bastante gente

Para haver consumo e sobram braços

Há sempre uma bomba-inteligente

Para cortar inúteis em pedaços



Neste labirinto a que chamamos vida

Gerida por leis cruas e irracionais

Onde o Valor, fetiche e suicida

É o deus de todos os mortais

Os lucros da miséria, essa enorme ferida

Alimenta na sombra milhões de canibais



Psicólogos pios e padres benfeitores

Almas piedosas da maior pureza

Solidariedades de todas as cores

Agarram a miséria, como agarram a presa

Nas escarpas andinas as garras dos condores

E outras rapaces da mesma natureza



De vez em quando ouvimos falar

Que ardeu um lar com alguns velhinhos

Estava tudo em ordem, mas houve um azar

Ás três da manhã, segundo os vizinhos

Mas nenhum milhafre nos ousou contar

Que os pobres morreram por estar sozinhos



Na vida global do mundo fetichista

O crime é o suporte de toda a estrutura

E a miséria humana dessa longa lista

Tem lobos famintos à sua procura

Com a pele de cordeiro e voz altruísta

Que devoram viva cada criatura



Crianças, velhos, doentes ou drogados

E até os mortos não ficam isentos

O bem fetichista tem olhos dotados

Da visão do lince, e trazem-lhe os ventos

O cheiro dos haveres dos mais desgraçados

Como ao abutre o cheiro dos seus alimentos



Na Justiça, o roubo e a corrupção

Movimentam hoje milhares de milhões

Porém o corrupto é sempre um cidadão

E os que roubam são sempre os ladrões

Mas quer lhe mudem os nomes ou não

O roubo é no Sistema os seus pulmões



O fetichismo impede o pensamento

A não ser em termos de Mercado

Ou em mitos que são seu instrumento

E o Homem é aqui domesticado

Como seja um cavalo ou um jumento

E é chamado depois civilizado



E delapidando a Natureza

Diz-se dela rei, mas antes está

Subordinado à sua realeza

Que é quem lhe permite andar por cá

E em jargão de guerra e de defesa

Ninguém defende ninguém do mal que há



Presa do fetiche e do engano

Onde não entra a luz nem tem acento

A sublime razão que o faz humano

O Homem não tem mais valimento

Antes arrasta o mundo ao caos insano

Quando o mito lhe tolhe o pensamento



Porém, como ente racional

Sempre tem na frente duas vias

Uma que é humana e natural

Outra que excede as bestas mais bravias

E é esta fase aguda e terminal

A do fetiche atroz dos nossos dias



Morto o trabalho e enterrado

Pôs-nos o fetiche a descoberto

Os abissais perigos do Mercado

Inútil é gritarmos no deserto

Se o valor da Razão não for usado

A via da loucura está mais perto.



Leonel Santos

Maio de 2008

A MORTE DO TRABALHO

A MORTE DO TRABALHO

Morreu o trabalho esse deus falho e insolente
Esse gigante, balofo e pedante e já decadente
Que presumia que sempre existia sem cair mais
Na vala da vida, que engole insofrida, os outros mortais
Morreu afinal, deixou de existir, está enterrado
Já não tem mais as honras reais de rei do Mercado

Pai do Valor, foi presa da vida que um dia gerou
À morte que o queria, dizer não podia, agora não vou
Não chamem por ele, não gritem, não chorem, é tempo perdido
Nem é racional, chamar afinal, quem tinha morrido
Matou aos milhões, roubou, explorou, pisou, reprimiu
Em nome dum bem, que o Mundo não tem, nem nunca existiu

Escravizou milhões e milhões sem freio nem medida
Padres e reis, chamaram-lhe as leis sagradas da vida
Nesses bons tempos de altos proventos e mão escrava
Era ele, esse bandalho do bom trabalho que cá mandava
Novos e velhos, jovens, crianças, tudo bulia
Nenhum vivente, nem besta nem gente, fugir-lhe podia

Jurisconsultos sábios e cultos, deram-lhe leis
A bem dos senhores, fidalgos, doutores, padres e reis
Tinha chicotes, tinha garrotes, tinha tiranos
E a quem morria, o céu garantia, direitos humanos
Navios negreiros, zarpavam ligeiros, pejados de gente
Enquanto o padre benzia, essa economia, piedosamente

Porquê tantos suores, tantos labores, se ainda agora
Morto o Trabalho, nenhum enxovalho, se foi embora
A fome e o frio, nada fugiu, tudo é igual
E ainda a guerra, que assola a Terra, é mais brutal
O crime é hoje um negócio, tornado sócio, do mundo inteiro
E a religião rebusca e fareja, um deus que a proteja, chamado dinheiro

O orçamento galopa, a guerra a tropa, se moderniza
Mas, na mira do perigo, o inimigo, se não divisa
Sucede que o bom trabalho, usou de um baralho já viciado
E após morrer levou, com o mal que o matou, Valor e Mercado
Porque o Mercado que o proletariado alimentou
Cedeu à mais-valia da tecnologia que o rejeitou

E sem proletário, o empresário produz a dobrar
Mas sem honorário, o proletário não pode comprar
E então a empresa, tem outra surpresa na produção
Não mais é capaz de vender o que faz … e a solução:
É um sistema de pernas p’ro ar, sem funcionar, onde ninguém
Produz mais Valor, porque o Valor, está morto também.

Leonel Santos
Lisboa, Abril de 2008

A SELVA

A SELVA




Certo dia um urso velho e experiente

Que vivia na selva há muitos anos

Começou a pensar se realmente

Era a selva dos ursos diferente

Da selva onde vivem os humanos



Sempre ouvira dizer a vida inteira

Que a selva humana tinha mais valor

Mas sempre pensou de outra maneira

Via a selva dos ursos mais ordeira

E eticamente superior



E por achar injusta a posição

Em que se encontrava a bicharada

O urso deu a volta à região

E convocou a todos sem excepção

Prà honra da selva ser lavada



Faltava atrair é natural

O predador humano a esta empresa

E o urso detestava este animal

Que por usurpação universal

Se apodava de rei da Natureza



Mas tantas voltas deu que um certo dia

Depois de ver gorados mil planos

O urso conseguiu aquilo que queria

E pôs a própria selva que o nutria

A discutir com a selva dos humanos



E foi ele o primeiro que com tristeza

Disse abertamente o que sentia

Impôs-me a dura lei da Natureza

Matar e devorar alguma presa

Para poder viver o dia a dia



Não tinha outro caminho, outra saída

Disse ainda o urso e se calou

E um leão rugiu logo em seguida

Que tinha também a mesma vida

Porque a Natureza o obrigou



Eu sempre procedi de forma honesta

Grasnou um abutre e com razão

Não mato ninguém, limpo a floresta

Mas para a selva humana sou a besta

E o bruto-a-montes do sertão



E ante a espécie humana ali presente

Alevantou ainda mais a voz

E disse, olhando os homens frente a frente

Vocês sempre foram e serão sempre

Bastante mais abutres do que nós



Comparem a diferença e a medida

Da corrupção na selva vossa

Com a nossa luta pela vida

E verão que é mais aguerrida

E muito mais selvagem do que a nossa



E se quiserem ter mais harmonia

Venham viver connosco aqui na selva

Disse p'ra assistência que o ouvia

Um dos porcos bravos que assistia

Enquanto retouçava alguma relva



Nós temos de matar disse chacal

Mas na perfídia dos chacais

Não há o instinto habitual

Que tem a vossa selva racional

De viver a matar os seus iguais



E se em minha selva há mal-estar

Muito mais longe a vossa está do bem

Não foram os chacais a inventar

Os tigres, a hiena, o jaguar

As bombas que a vossa selva tem

As guerras do Valor e de Rapina

Que a vossa selva trava noite e dia

E tudo quanto ela congemina

Envergonham a nossa lei felina

E a selva que nos guarda e que nos cria



Nessa altura surgiu um jacaré

A defender a selva em que vivia

Chegara extenuado da Guiné

Julgando os presentes que ele até

Estava adormecido e não ouvia



Falou da selva humana e com desdém

A chamou de selva repelente

Como a paz não dá lucro a ninguém

Vendeis a guerra que o mantém

E o Mercado flui matando gente



E falando por fim com mais rigor

Disse para os outros animais

Que nenhuma selva era pior

Que a SELVA HUMANA DO VALOR

No ventre das selvas mundiais



Leonel Santos

Abril de 2008

A DECADÊNCIA

A DECADÊNCIA



Quando eu era jovem meus amigos

O comércio e a cidade eram diferentes

Os donos expunham os artigos

Em montras de vidraça transparentes



E à noite quando o Sol adormecia

Enfeitavam-se as montras a rigor

E ligava-se a luz até de dia

A chamar a atenção do comprador



Iam rua fora os namorados

E as famílias saíam com os amigos

A ver nas montras os preços fixados

E a discutir o preço dos artigos



Mas agora quando a noite vem

As montras que eu vi iluminadas

Têm grandes cadeados e também

Portas de ferro em chapas onduladas



Montras que envoltas na escuridão

Num ar nebuloso de mistério

Nos lembram menos a sua função

Que túmulos negros de um cemitério



Porquê esta mudança que desmente

Todos os sábios da Modernidade?

Porque o Valor o rei omnipotente

Nos abriu as portas da realidade



Toda a grandeza que o Sistema orneia

São palavras ocas de conveniência

Porque o mudo apenas esperneia

Para manter as leis da sobrevivência



O Trabalho morreu e ao morrer

Esse rei sem trono tudo foi mudado

O pobre não tem mais a quem se vender

E o Crime passou a rei do Mercado



Venderam-se escravos? Pois agora

Vendem-se olhos, rins e corações

Vendem-se em pedaços os mesmos que outrora

Se venderam inteiros por muitos milhões



A Corrupção sem freio e sem temor

Fareja e espreita a presa distraída

E crava os dentes cegos do Valor

Como chacal à solta na selva da vida



A droga torno-se omnipresente

E o valor dum novo lamaçal

Vender a Morte nunca foi decente

Mas o Mercado não contém Moral



A Guerra é agora a maior empresa

Que emprega gente em vez de a afastar

Faliram as fábricas de fazer riqueza

Abriram-se mais as portas da barbárie



Pergunto o que através dos anos

A Humanidade fez a seu favor?

A não ser criar mitos e tiranos

E prostrar-se ao deus cego do Valor.



Leonel Santos

Lisboa, Abril de 2008

EPITÁFIO PARA O TRABALHO

EPITÁFIO PARA O TRABALHO


O herói está morto

E o mundo já não é igual

Consignou-se que era um herói imortal

Mas finou-se, e já não faz sentido

Que alguém não aceite que tenha morrido

E à sua volta um ruído enorme

Vocifere que ele apenas dorme

Está morto o herói, e inútil será

Gritar que viva a quem está morto já

Resta agora fazer-lhe humanamente

Conforme o seu estatuto um funeral decente

Mas se às costas do herói emérito

Jaz o mundo presente e o pretérito

Há que erguer um duplo mausoléu

E sepultar ainda o mundo que ele ergueu

Gritar por si nesta hora tardia

Só pode ser loucura ou ser demagogia

De quem não se conforma ou quer voltar atrás

Quando a razão nos manda deixar o morto em paz

Seu jugo foi longo e foi pesado

Mas no seu caixão de herói mitificado

Enterram-se as promessas do seu império vão

Promessas e sonhos que já nem sonhos são

Os milhões de escravos que encheram os porões

De naus negreiras, tumbeiros ou galeões

Conversos em manadas como irracionais

Rumo aos cerrados e aos canaviais

Os grupos de campónios quase infinitos

Fábricas, operários, sirenes aos gritos

A servidão maciça, abrupta, irracional

Em nome do sublime progresso universal

Tudo se calou, o mundo é diferente

Morreu o TRABALHO ingloriamente

Esse gigante que nos prometia

Uma Nova Ordem e a Terceira Via

E nos deixa agora a guerra e a rapina

E a moral da selva por disciplina

Jazendo inerte, frio e já sem cor

Como qualquer escravo de que foi senhor

Que reze a direita enlevada em fé

A ver se o defunto volta a pôr-se em pé

Que grite a esquerda de noite e de dia

A ver se o acorda com a gritaria



Repense-se o mundo, o TRABALHO morreu

E com ele o mundo que nos prometeu.



Lisboa, Março de 2005

Leonel Santos

A palavra do Valor

A palavra do Valor



Se o Valor se alou a rei supremo

E o Crime vale mais do que o Direito

Sobe a lei do Valor ao topo extremo

E a Justiça e a Lei não surte efeito



A guerra mercantil e prepotente

Com novas armas e novas invenções

É a voz do rei a mandar a gente

A razão da morte a contar cifrões



A droga valendo mais que a vida

É a razão da sua própria chaga

Porque o Valor da droga é a medida

Da própria vida que o Valor esmaga



O sexo-Valor monopoliza

E arrasta crianças e mulheres

E o Valor do crime animaliza

Para além das bestas os restantes seres



A praga solidária que se nutre

Dos destroços da vida e da pobreza

Indo além do voraz abutre

Canta hinos de louvor à presa



O terrorismo existe, e por ventura

O sistema sem terror existiria

Quando o ferrete da escravatura

É senha nobre da economia?



No comércio da guerra e dos heróis

Há turbilhões de sangue e visões sinistras

Que o cinema lava e vende depois

Em doses nobres e pedagogistas



E o Valor prossegue a sua rota vil

Negando a Humanidade e fazendo a Lei

A vida trás o selo mercantil

E a Justiça faz de bobo do rei



A Civilização essa maravilha

Que sábios e deuses souberam criar

Quando mais velha mais se ilustra e brilha

E mais depressa consegue matar



Lisboa, Junho 2004

Leonel Santos

O Monstro Difuso





PROÉMIO SOBRE O MONSTRO DIFUSO

Cale-se de Pessoa o abstruso Mostrengo
Que chiava sobre as naus de D. João II
 Sou eu o Monstro-mor e mais horrendo
   O derradeiro Monstro que paira sobre do mundo!

Leonel Santos, Lisboa, Julho de 2014


O MONSTRO DIFUSO


Nascido algures na bruma de outras eras
Diferente  eu sou de todas as quimeras
De todos os dragões alados do Levante
De olhos sanguíneos e boca flamejante
De todas as serpentes astutas, infernais
De lendas bolorentas e ancestrais
Da Hidra de Lerna de cabeças várias
De todos os mostrengos e todas alimárias.
Não sou delírio vão, nem grito de profetas
Nem génio de pintor, nem sonho de poetas
Mas sou realidade…e impossível
Será que exista outra mais terrível…
Meus braços, invisíveis e diferentes
De todos os monstros e todos os viventes
São os vossos braços…e vos digo mais
Ando com as pernas com que vós andais
Depois que percorri os séculos um a um
Cheguei enfim aqui… a lado nenhum…
Tive pais, padrinhos e parentes
Sou filho de sábios, génios e valentes
Usei chapéu alto e usei gravata
Fui socialista e fui fascista, fui padre e fui pirata
Esclavagista e liberal, anarquista e democrata
Meu nome não importa, minha missão é esta
Sou do mundo a derradeira besta
A Lei morreu, a Ordem se esfumou
E a Nova Ordem é a desordem que eu sou
A Abstracção total, o Crime do mundo
O pântano e a voragem onde me afundo
A miragem doirada de toda a podridão
O Tartufo supremo da Civilização.
A tragédia que avança…o Lamaçal
A flor sublime da estrumeira global
Para mim paz e guerra são iguais
Dar-vos-ei a que achar que vale mais
E caso valha mais a gente morta
Que morra quem morrer que eu não me importa
Arrancarei olhos, rins e corações
Para vender em troca de milhões
E em troca de milhões farei também
A Justiça e a Lei que me convém
Lançarei no lixo o pão que não se come
Enquanto for matando o mundo à fome
A corrupção será sempre o meu estandarte
A minha vida, a minha força, a minha arte
Depois que reduzi o mundo à escravatura
Vos canto a liberdade, o progresso e a fartura
Porque também a minha linguagem
Serve os meus interesses e traz a minha imagem
Mas tudo o que  eu prometo são cantos de sereias
Porque só a guerra me percorre as veias
Esse monstro que devora os inocentes
São as minhas garras, a força dos meus dentes
É o desespero de um monstro condenado
A morrer matando quem não é culpado
Farei prostitutas e drogados aos milhões
Porque eu próprio sou a droga das nações
Nações que no fundo não passam de utopia
Porque não há fronteiras na minha hegemonia
Sou eu o desespero que cada um transporta
A vida desiludida que já nasce morta
Sou eu o terrorismo, a última invenção
Dos génios do Mercado p’ra minha salvação
Sem terrorismo, anti-terrorismo, crime e guerra
Não posso eu, um minuto mais, habitar a Terra
Não sou americano, nem árabe, nem judeu
Não sou homem-bomba, nem crente, nem ateu
Sou apenas eu e, ninguém mais forte
Poderá deter-me a não ser a morte…
Até na paz breve que a vida vos consente
Farei eu morrer milhões de gente
Porque eu sou a morte e não sou a vida
Sou o aborto, o anti-aborto, a pedofilia e a sida
O desemprego e a falência, a insegurança e as prisões
Os Tribunais, o Direito, a Justiça e os Ladrões
E sou ainda na gíria universal
O Iluminismo, a civilização e a Moral
Sou ainda o fogo que vos leva gados, casas e floresta
Não posso mudar nunca, a minha sina é esta…
Sou a Democracia, sou a Modernidade
Sou o Crime, o Cinismo, a Caridade
Sou o Mercado e o Dinheiro... Sou o Valor
Não tenho pátria, nem raça, nem cor
Todos os deuses, antigos e modernos
Todos os paraísos e todos os infernos
Pobres e ricos, palhaços, presidentes e reis
Têm um valor…e esse Valor são as minhas leis
Nada tenho de humano, sou cego, surdo e mudo
Indiferente á dor, à guerra, à morte, a tudo…
Sou o Dinheiro-deus … «abstracção real»
Que transforma em besta cada racional!

Leonel Santos,
Lisboa, Março de 2004

A COMÉDIA DA TRAGÉDIA

A COMÉDIA DA TRAGÉDIA



De Abril a Março


Um dia ao sol de Abril alguns pavões

Se exibiram grasnando em altos brados

Que a pátria estava cheia de ladrões

E não dormiam com pena dos roubados



Com esta grasnada redentora

Abutres a fugir em debandada

Caíram os pavões na mesma hora

Em cima da carcaça abandonada



E abrindo a longa cauda e a plumagem

Enfunando com grande galhardia

Rufavam catadupas de coragem

E cada um por si mais prometia



Havia liberdade a tuta-e-meia

E direitos humanos a pataco

A democracia então era à macheia

E quem quisesse podia encher o saco



As coisas que eram caras sem razão

Passariam em seguida a ser baratas

E com o "direito sagrado" à habitação

Punham a casa ao preço das batatas



Mas depois, pouco tempo era passado

E quase sem ninguém se aperceber

O bico dos pavões ficou curvado

E as unhas começaram-lhe a crescer



Soube-se já no fim desta disputa

Que os ditos pavões não eram mais

Que outra espécie de abutres mais astuta

A disputar a presa aos seus iguais



Cresceu assim impante e agitado

O Portugal moderno e abrilento

Com brigas e barulho em todo o lado

Que todos queriam à uma ir lá para dentro



Ouvir falar de Abril era um encanto

Nunca ninguém ouvira assim falar

Que nenhum aldrabão aldrabou tanto

Antes dos abrilentos cá chegar



Até que de Paris chegou então

O maior abrilento lusitano

Espécie de D. Sebastião

Verbo guerreiro e alma de cigano



A língua afiada e nada presa

O discurso meloso, apadralhado

E muito não tardou que sua alteza

Fosse ocupar o trono abandonado



A partir desse dia o Zé Povinho

Não tinha Portugal amordaçado

Era livre como um passarinho

E o pão nunca mais foi aumentado



A fartura subiu a tal altura

Que quase não se queria acreditar

E a liberdade também, tudo à mistura

Como podemos hoje constatar



Foi assim que a vida em Portugal

Se tornou neste sonho encantador

Somos em corrupção o principal

E na droga não se pode estar pior



Na prostituição temos progresso

Com leis sabichonas e modernas

E não parou mais de haver sucesso

Para quem ganha a vida abrindo as pernas



Nas estradas, nos campos e nas matas

Nas ruas, nas esquinas da cidade

Vendem-se brancas, pretas e mulatas

Porque abril trouxe a liberdade



E depois deste progresso, sabiamente

Temos ainda em SIDA a primazia

Passamos a Europa toda à frente

Inclusive a Grécia e a Turquia



De Março a Março

Abril foi um sonho derradeiro

Sonho tardio, infantil e vão

Com que sonhara o mundo inteiro

Antes de acordar da sua hibernação



O sonho deixou hoje de fazer sentido

Quem sabe o porto onde vai parar

Quando pilota um barco de leme partido

Ouve rugir o vento e vê crescer o mar



Na surrealidade cega e soberana

Quem pode imaginar um futuro risonho

Quando no topo da ganância humana

O futuro é nada e o real é sonho



O Deus-Mercado, deus-globalizado

É agora o rei deste sistema vil

Rei do petróleo a bem do mercado

Rei do mercado a bem do barril



A carnificina cega da mercancia

Não perdoa mais nem se compadece

A guerra é lucro e nesta circunstância

Rebentando bombas o Mercado cresce



Todo o sonho antigo se evaporou

As manhãs que cantam, o ir mais além

Sonha hoje quem não acordou

Acordado não sonha agora ninguém



Chegamos ao fim duma longa estrada

O rei vai nu mas ninguém o diz

A demagogia, velha e desgraçada

Devora-se a si própria de tão infeliz



Morreu o progresso, esse galo canoro

Que há mil anos canta em cima da estrumeira

Há no ar um cheiro de muito mau agouro

A barbárie antiga que tão mal cheira



A obra-prima, a civilização

Dos grandes heróis e dos grandes santos

É esta gangrena de corrupção

Podridão e droga por todos os cantos



É a guerra, assaz, divinizada

Em nome da paz e da filantropia

É a humanidade aos milhões queimada

Ou morta à fome aos milhares por dia



No jargão cego e surdo do Mercado

O crime passou a feito de heroísmo

A morte e a vida tudo é contado

Na base dos lucros do Capitalismo



Do outro lado, mas qual lado?

Dizem os sábios ... mora o Terrorismo.



Leonel Santos, Fevereiro 2003

O ÚLTIMO DOS DEUSES

O ÚLTIMO DOS DEUSES



Bombas e Droga (III)

1

Depois do rendimento de milhões

Com bombas progressistas e aviões

A Civilização gloriosa

Tem esta genial mercadoria

Ao serviço da lei da mais-valia

E do Novo Mundo cor-de-rosa

2

Bombas, guerras, droga, tudo, enfim

Vai transformar a Terra num jardim

E dá cada dia novos passos

Gente pobre, gente morta ou gente viva

O Mercado usa a mesma estimativa

A todos estendendo os longos braços

3

Se o drogado é mercadoria

Tem um ciclo a cumprir, uma valia

Até que outro tome o seu lugar

E as bombas vão caindo em qualquer lado

Conforme são precisas ao Mercado

Que não pode viver se não matar

4

Se a máquina superou o seu valor

Entenda o antigo produtor

Que é consumidor mas não é gente

E que na bitola do Mercado

Não é mais nem menos que o drogado

Comprar droga ou pão não é diferente

5

É preciso consumir, consumir sempre

Correr cada vez mais, cega e loucamente

Sem meta, sem destino e sem estrada

Porque a sociedade mercantil

É esta corrida, louca e imbecil

Febril e infinita atrás do nada

6

E como a droga traz altas receitas

Ela é o deus das mafias e das seitas

Das religiões e dos Estados

E as benfeitorias sociais

Como as carraças nos irracionais

Agarram-se às misérias dos drogados

7

E por absurdo do Mercado

Até não há drogado ou viciado

As drogas são doenças naturais

E assim há doenças e não vícios

A justificar os bons ofícios

Das piedosas pragas sociais

8

Por trás da prevenção fantoche dos Estados

Há sempre mil barões e ricos instalados

À custa dos drogados, escravos actuais

Que após serem presa de falcões

Se afogam na lama de instituições

Com nomes sonantes e gula de chacais

9

Assim o drogado serve duplamente

No campo aberto, o falcão e a serpente

E o voraz abutre, por fim, num lar fechado

Não foi feito para servir leis

É tesouro de padres, de doutores e reis

É o ouro fino do novo Mercado

10

Almas piedosas, doces, solidárias

Associações, igrejas, seitas várias

Penduradas nos cofres estatais

Arrancam aqui a última fatia

Desta genial mercadoria

Que é depois da bomba o que vale mais

11

Na sua lei cega, o Mercado brama

Que se acenda a Guerra ou se apague a chama

Com a frieza da pedra das montanhas

Cruel e absurdo, este Adamastor

Vai connosco onde a gente for

Cavalga a força das nossas entranhas

12

O Mal e o Bem não serão jamais

Inimigos velhos e mortais

À luz do valor e do Mercado

A diferença só consta do dinheiro

Se a bomba vale mais do que o carneiro

A bala vale menos que o drogado



Lisboa, Junho de 2002

Leonel Santos