DO FETICHE

DO FETICHE


Aquele fetichismo que fez jus

À sapiência antiga dos tiranos

Dispersa em tempos como luz

Na mente primitiva dos humanos

Ainda nos persegue e nos conduz

Apesar de passados largos anos



Hoje com o nome diferente

De Civilização alta e pomposa

Esse fetiche velho descendente

Dessa era antiga e fabulosa

Nos dirige ainda infelizmente

Na mesma via cega e tortuosa



Se a nossa longa caminhada

Nos parece engenhosa e sapiente

Se usamos a lança e a espada

E temos hoje a bomba-inteligente

No fundo não andamos nada

Só fizemos a morte andar em frente



As bombas que temos e granadas

Os mísseis, a espingarda e o canhão

E outras armas mais sofisticadas

Com que se faz da morte o ganha-pão

São apenas peças destinadas

A pôr o lucro acima da razão



A Civilização que apregoamos

É uma selva densa e insegura

Onde nos vendemos e compramos

Escravos da oferta e da procura

E os próprios braços que ofertamos

Os não quer a nova escravatura



Atolados num Sistema mais impuro

Que o dos próprios seres irracionais

Sem termos passado, e o futuro

Não sabemos se ele existe mais

Gritamos louca mente no escuro

Que somos reis dos outros animais



A África resistente á escravidão

E á humilhação colonial

Sufoca agora á destruição

Á fome e á doença civilizacional

Porque a suposta Civilização

É a fase aguda do seu velho mal



Pelos quatros pontos cardeais

Batida pelos ventos a humana galé

É um barco velho sem leme nem arrais

Sem saber onde vai nem saber quem é

Tentando lobrigar um fabuloso cais

Com a cegueira à proa e o abismo à ré



E se o Mercado tem continuamente

De ultrapassar barreiras e fracassos

Se é preciso haver bastante gente

Para haver consumo e sobram braços

Há sempre uma bomba-inteligente

Para cortar inúteis em pedaços



Neste labirinto a que chamamos vida

Gerida por leis cruas e irracionais

Onde o Valor, fetiche e suicida

É o deus de todos os mortais

Os lucros da miséria, essa enorme ferida

Alimenta na sombra milhões de canibais



Psicólogos pios e padres benfeitores

Almas piedosas da maior pureza

Solidariedades de todas as cores

Agarram a miséria, como agarram a presa

Nas escarpas andinas as garras dos condores

E outras rapaces da mesma natureza



De vez em quando ouvimos falar

Que ardeu um lar com alguns velhinhos

Estava tudo em ordem, mas houve um azar

Ás três da manhã, segundo os vizinhos

Mas nenhum milhafre nos ousou contar

Que os pobres morreram por estar sozinhos



Na vida global do mundo fetichista

O crime é o suporte de toda a estrutura

E a miséria humana dessa longa lista

Tem lobos famintos à sua procura

Com a pele de cordeiro e voz altruísta

Que devoram viva cada criatura



Crianças, velhos, doentes ou drogados

E até os mortos não ficam isentos

O bem fetichista tem olhos dotados

Da visão do lince, e trazem-lhe os ventos

O cheiro dos haveres dos mais desgraçados

Como ao abutre o cheiro dos seus alimentos



Na Justiça, o roubo e a corrupção

Movimentam hoje milhares de milhões

Porém o corrupto é sempre um cidadão

E os que roubam são sempre os ladrões

Mas quer lhe mudem os nomes ou não

O roubo é no Sistema os seus pulmões



O fetichismo impede o pensamento

A não ser em termos de Mercado

Ou em mitos que são seu instrumento

E o Homem é aqui domesticado

Como seja um cavalo ou um jumento

E é chamado depois civilizado



E delapidando a Natureza

Diz-se dela rei, mas antes está

Subordinado à sua realeza

Que é quem lhe permite andar por cá

E em jargão de guerra e de defesa

Ninguém defende ninguém do mal que há



Presa do fetiche e do engano

Onde não entra a luz nem tem acento

A sublime razão que o faz humano

O Homem não tem mais valimento

Antes arrasta o mundo ao caos insano

Quando o mito lhe tolhe o pensamento



Porém, como ente racional

Sempre tem na frente duas vias

Uma que é humana e natural

Outra que excede as bestas mais bravias

E é esta fase aguda e terminal

A do fetiche atroz dos nossos dias



Morto o trabalho e enterrado

Pôs-nos o fetiche a descoberto

Os abissais perigos do Mercado

Inútil é gritarmos no deserto

Se o valor da Razão não for usado

A via da loucura está mais perto.



Leonel Santos

Maio de 2008

A MORTE DO TRABALHO

A MORTE DO TRABALHO

Morreu o trabalho esse deus falho e insolente
Esse gigante, balofo e pedante e já decadente
Que presumia que sempre existia sem cair mais
Na vala da vida, que engole insofrida, os outros mortais
Morreu afinal, deixou de existir, está enterrado
Já não tem mais as honras reais de rei do Mercado

Pai do Valor, foi presa da vida que um dia gerou
À morte que o queria, dizer não podia, agora não vou
Não chamem por ele, não gritem, não chorem, é tempo perdido
Nem é racional, chamar afinal, quem tinha morrido
Matou aos milhões, roubou, explorou, pisou, reprimiu
Em nome dum bem, que o Mundo não tem, nem nunca existiu

Escravizou milhões e milhões sem freio nem medida
Padres e reis, chamaram-lhe as leis sagradas da vida
Nesses bons tempos de altos proventos e mão escrava
Era ele, esse bandalho do bom trabalho que cá mandava
Novos e velhos, jovens, crianças, tudo bulia
Nenhum vivente, nem besta nem gente, fugir-lhe podia

Jurisconsultos sábios e cultos, deram-lhe leis
A bem dos senhores, fidalgos, doutores, padres e reis
Tinha chicotes, tinha garrotes, tinha tiranos
E a quem morria, o céu garantia, direitos humanos
Navios negreiros, zarpavam ligeiros, pejados de gente
Enquanto o padre benzia, essa economia, piedosamente

Porquê tantos suores, tantos labores, se ainda agora
Morto o Trabalho, nenhum enxovalho, se foi embora
A fome e o frio, nada fugiu, tudo é igual
E ainda a guerra, que assola a Terra, é mais brutal
O crime é hoje um negócio, tornado sócio, do mundo inteiro
E a religião rebusca e fareja, um deus que a proteja, chamado dinheiro

O orçamento galopa, a guerra a tropa, se moderniza
Mas, na mira do perigo, o inimigo, se não divisa
Sucede que o bom trabalho, usou de um baralho já viciado
E após morrer levou, com o mal que o matou, Valor e Mercado
Porque o Mercado que o proletariado alimentou
Cedeu à mais-valia da tecnologia que o rejeitou

E sem proletário, o empresário produz a dobrar
Mas sem honorário, o proletário não pode comprar
E então a empresa, tem outra surpresa na produção
Não mais é capaz de vender o que faz … e a solução:
É um sistema de pernas p’ro ar, sem funcionar, onde ninguém
Produz mais Valor, porque o Valor, está morto também.

Leonel Santos
Lisboa, Abril de 2008

A SELVA

A SELVA




Certo dia um urso velho e experiente

Que vivia na selva há muitos anos

Começou a pensar se realmente

Era a selva dos ursos diferente

Da selva onde vivem os humanos



Sempre ouvira dizer a vida inteira

Que a selva humana tinha mais valor

Mas sempre pensou de outra maneira

Via a selva dos ursos mais ordeira

E eticamente superior



E por achar injusta a posição

Em que se encontrava a bicharada

O urso deu a volta à região

E convocou a todos sem excepção

Prà honra da selva ser lavada



Faltava atrair é natural

O predador humano a esta empresa

E o urso detestava este animal

Que por usurpação universal

Se apodava de rei da Natureza



Mas tantas voltas deu que um certo dia

Depois de ver gorados mil planos

O urso conseguiu aquilo que queria

E pôs a própria selva que o nutria

A discutir com a selva dos humanos



E foi ele o primeiro que com tristeza

Disse abertamente o que sentia

Impôs-me a dura lei da Natureza

Matar e devorar alguma presa

Para poder viver o dia a dia



Não tinha outro caminho, outra saída

Disse ainda o urso e se calou

E um leão rugiu logo em seguida

Que tinha também a mesma vida

Porque a Natureza o obrigou



Eu sempre procedi de forma honesta

Grasnou um abutre e com razão

Não mato ninguém, limpo a floresta

Mas para a selva humana sou a besta

E o bruto-a-montes do sertão



E ante a espécie humana ali presente

Alevantou ainda mais a voz

E disse, olhando os homens frente a frente

Vocês sempre foram e serão sempre

Bastante mais abutres do que nós



Comparem a diferença e a medida

Da corrupção na selva vossa

Com a nossa luta pela vida

E verão que é mais aguerrida

E muito mais selvagem do que a nossa



E se quiserem ter mais harmonia

Venham viver connosco aqui na selva

Disse p'ra assistência que o ouvia

Um dos porcos bravos que assistia

Enquanto retouçava alguma relva



Nós temos de matar disse chacal

Mas na perfídia dos chacais

Não há o instinto habitual

Que tem a vossa selva racional

De viver a matar os seus iguais



E se em minha selva há mal-estar

Muito mais longe a vossa está do bem

Não foram os chacais a inventar

Os tigres, a hiena, o jaguar

As bombas que a vossa selva tem

As guerras do Valor e de Rapina

Que a vossa selva trava noite e dia

E tudo quanto ela congemina

Envergonham a nossa lei felina

E a selva que nos guarda e que nos cria



Nessa altura surgiu um jacaré

A defender a selva em que vivia

Chegara extenuado da Guiné

Julgando os presentes que ele até

Estava adormecido e não ouvia



Falou da selva humana e com desdém

A chamou de selva repelente

Como a paz não dá lucro a ninguém

Vendeis a guerra que o mantém

E o Mercado flui matando gente



E falando por fim com mais rigor

Disse para os outros animais

Que nenhuma selva era pior

Que a SELVA HUMANA DO VALOR

No ventre das selvas mundiais



Leonel Santos

Abril de 2008

A DECADÊNCIA

A DECADÊNCIA



Quando eu era jovem meus amigos

O comércio e a cidade eram diferentes

Os donos expunham os artigos

Em montras de vidraça transparentes



E à noite quando o Sol adormecia

Enfeitavam-se as montras a rigor

E ligava-se a luz até de dia

A chamar a atenção do comprador



Iam rua fora os namorados

E as famílias saíam com os amigos

A ver nas montras os preços fixados

E a discutir o preço dos artigos



Mas agora quando a noite vem

As montras que eu vi iluminadas

Têm grandes cadeados e também

Portas de ferro em chapas onduladas



Montras que envoltas na escuridão

Num ar nebuloso de mistério

Nos lembram menos a sua função

Que túmulos negros de um cemitério



Porquê esta mudança que desmente

Todos os sábios da Modernidade?

Porque o Valor o rei omnipotente

Nos abriu as portas da realidade



Toda a grandeza que o Sistema orneia

São palavras ocas de conveniência

Porque o mudo apenas esperneia

Para manter as leis da sobrevivência



O Trabalho morreu e ao morrer

Esse rei sem trono tudo foi mudado

O pobre não tem mais a quem se vender

E o Crime passou a rei do Mercado



Venderam-se escravos? Pois agora

Vendem-se olhos, rins e corações

Vendem-se em pedaços os mesmos que outrora

Se venderam inteiros por muitos milhões



A Corrupção sem freio e sem temor

Fareja e espreita a presa distraída

E crava os dentes cegos do Valor

Como chacal à solta na selva da vida



A droga torno-se omnipresente

E o valor dum novo lamaçal

Vender a Morte nunca foi decente

Mas o Mercado não contém Moral



A Guerra é agora a maior empresa

Que emprega gente em vez de a afastar

Faliram as fábricas de fazer riqueza

Abriram-se mais as portas da barbárie



Pergunto o que através dos anos

A Humanidade fez a seu favor?

A não ser criar mitos e tiranos

E prostrar-se ao deus cego do Valor.



Leonel Santos

Lisboa, Abril de 2008

EPITÁFIO PARA O TRABALHO

EPITÁFIO PARA O TRABALHO


O herói está morto

E o mundo já não é igual

Consignou-se que era um herói imortal

Mas finou-se, e já não faz sentido

Que alguém não aceite que tenha morrido

E à sua volta um ruído enorme

Vocifere que ele apenas dorme

Está morto o herói, e inútil será

Gritar que viva a quem está morto já

Resta agora fazer-lhe humanamente

Conforme o seu estatuto um funeral decente

Mas se às costas do herói emérito

Jaz o mundo presente e o pretérito

Há que erguer um duplo mausoléu

E sepultar ainda o mundo que ele ergueu

Gritar por si nesta hora tardia

Só pode ser loucura ou ser demagogia

De quem não se conforma ou quer voltar atrás

Quando a razão nos manda deixar o morto em paz

Seu jugo foi longo e foi pesado

Mas no seu caixão de herói mitificado

Enterram-se as promessas do seu império vão

Promessas e sonhos que já nem sonhos são

Os milhões de escravos que encheram os porões

De naus negreiras, tumbeiros ou galeões

Conversos em manadas como irracionais

Rumo aos cerrados e aos canaviais

Os grupos de campónios quase infinitos

Fábricas, operários, sirenes aos gritos

A servidão maciça, abrupta, irracional

Em nome do sublime progresso universal

Tudo se calou, o mundo é diferente

Morreu o TRABALHO ingloriamente

Esse gigante que nos prometia

Uma Nova Ordem e a Terceira Via

E nos deixa agora a guerra e a rapina

E a moral da selva por disciplina

Jazendo inerte, frio e já sem cor

Como qualquer escravo de que foi senhor

Que reze a direita enlevada em fé

A ver se o defunto volta a pôr-se em pé

Que grite a esquerda de noite e de dia

A ver se o acorda com a gritaria



Repense-se o mundo, o TRABALHO morreu

E com ele o mundo que nos prometeu.



Lisboa, Março de 2005

Leonel Santos

A palavra do Valor

A palavra do Valor



Se o Valor se alou a rei supremo

E o Crime vale mais do que o Direito

Sobe a lei do Valor ao topo extremo

E a Justiça e a Lei não surte efeito



A guerra mercantil e prepotente

Com novas armas e novas invenções

É a voz do rei a mandar a gente

A razão da morte a contar cifrões



A droga valendo mais que a vida

É a razão da sua própria chaga

Porque o Valor da droga é a medida

Da própria vida que o Valor esmaga



O sexo-Valor monopoliza

E arrasta crianças e mulheres

E o Valor do crime animaliza

Para além das bestas os restantes seres



A praga solidária que se nutre

Dos destroços da vida e da pobreza

Indo além do voraz abutre

Canta hinos de louvor à presa



O terrorismo existe, e por ventura

O sistema sem terror existiria

Quando o ferrete da escravatura

É senha nobre da economia?



No comércio da guerra e dos heróis

Há turbilhões de sangue e visões sinistras

Que o cinema lava e vende depois

Em doses nobres e pedagogistas



E o Valor prossegue a sua rota vil

Negando a Humanidade e fazendo a Lei

A vida trás o selo mercantil

E a Justiça faz de bobo do rei



A Civilização essa maravilha

Que sábios e deuses souberam criar

Quando mais velha mais se ilustra e brilha

E mais depressa consegue matar



Lisboa, Junho 2004

Leonel Santos

O Monstro Difuso





PROÉMIO SOBRE O MONSTRO DIFUSO

Cale-se de Pessoa o abstruso Mostrengo
Que chiava sobre as naus de D. João II
 Sou eu o Monstro-mor e mais horrendo
   O derradeiro Monstro que paira sobre do mundo!

Leonel Santos, Lisboa, Julho de 2014


O MONSTRO DIFUSO


Nascido algures na bruma de outras eras
Diferente  eu sou de todas as quimeras
De todos os dragões alados do Levante
De olhos sanguíneos e boca flamejante
De todas as serpentes astutas, infernais
De lendas bolorentas e ancestrais
Da Hidra de Lerna de cabeças várias
De todos os mostrengos e todas alimárias.
Não sou delírio vão, nem grito de profetas
Nem génio de pintor, nem sonho de poetas
Mas sou realidade…e impossível
Será que exista outra mais terrível…
Meus braços, invisíveis e diferentes
De todos os monstros e todos os viventes
São os vossos braços…e vos digo mais
Ando com as pernas com que vós andais
Depois que percorri os séculos um a um
Cheguei enfim aqui… a lado nenhum…
Tive pais, padrinhos e parentes
Sou filho de sábios, génios e valentes
Usei chapéu alto e usei gravata
Fui socialista e fui fascista, fui padre e fui pirata
Esclavagista e liberal, anarquista e democrata
Meu nome não importa, minha missão é esta
Sou do mundo a derradeira besta
A Lei morreu, a Ordem se esfumou
E a Nova Ordem é a desordem que eu sou
A Abstracção total, o Crime do mundo
O pântano e a voragem onde me afundo
A miragem doirada de toda a podridão
O Tartufo supremo da Civilização.
A tragédia que avança…o Lamaçal
A flor sublime da estrumeira global
Para mim paz e guerra são iguais
Dar-vos-ei a que achar que vale mais
E caso valha mais a gente morta
Que morra quem morrer que eu não me importa
Arrancarei olhos, rins e corações
Para vender em troca de milhões
E em troca de milhões farei também
A Justiça e a Lei que me convém
Lançarei no lixo o pão que não se come
Enquanto for matando o mundo à fome
A corrupção será sempre o meu estandarte
A minha vida, a minha força, a minha arte
Depois que reduzi o mundo à escravatura
Vos canto a liberdade, o progresso e a fartura
Porque também a minha linguagem
Serve os meus interesses e traz a minha imagem
Mas tudo o que  eu prometo são cantos de sereias
Porque só a guerra me percorre as veias
Esse monstro que devora os inocentes
São as minhas garras, a força dos meus dentes
É o desespero de um monstro condenado
A morrer matando quem não é culpado
Farei prostitutas e drogados aos milhões
Porque eu próprio sou a droga das nações
Nações que no fundo não passam de utopia
Porque não há fronteiras na minha hegemonia
Sou eu o desespero que cada um transporta
A vida desiludida que já nasce morta
Sou eu o terrorismo, a última invenção
Dos génios do Mercado p’ra minha salvação
Sem terrorismo, anti-terrorismo, crime e guerra
Não posso eu, um minuto mais, habitar a Terra
Não sou americano, nem árabe, nem judeu
Não sou homem-bomba, nem crente, nem ateu
Sou apenas eu e, ninguém mais forte
Poderá deter-me a não ser a morte…
Até na paz breve que a vida vos consente
Farei eu morrer milhões de gente
Porque eu sou a morte e não sou a vida
Sou o aborto, o anti-aborto, a pedofilia e a sida
O desemprego e a falência, a insegurança e as prisões
Os Tribunais, o Direito, a Justiça e os Ladrões
E sou ainda na gíria universal
O Iluminismo, a civilização e a Moral
Sou ainda o fogo que vos leva gados, casas e floresta
Não posso mudar nunca, a minha sina é esta…
Sou a Democracia, sou a Modernidade
Sou o Crime, o Cinismo, a Caridade
Sou o Mercado e o Dinheiro... Sou o Valor
Não tenho pátria, nem raça, nem cor
Todos os deuses, antigos e modernos
Todos os paraísos e todos os infernos
Pobres e ricos, palhaços, presidentes e reis
Têm um valor…e esse Valor são as minhas leis
Nada tenho de humano, sou cego, surdo e mudo
Indiferente á dor, à guerra, à morte, a tudo…
Sou o Dinheiro-deus … «abstracção real»
Que transforma em besta cada racional!

Leonel Santos,
Lisboa, Março de 2004

A COMÉDIA DA TRAGÉDIA

A COMÉDIA DA TRAGÉDIA



De Abril a Março


Um dia ao sol de Abril alguns pavões

Se exibiram grasnando em altos brados

Que a pátria estava cheia de ladrões

E não dormiam com pena dos roubados



Com esta grasnada redentora

Abutres a fugir em debandada

Caíram os pavões na mesma hora

Em cima da carcaça abandonada



E abrindo a longa cauda e a plumagem

Enfunando com grande galhardia

Rufavam catadupas de coragem

E cada um por si mais prometia



Havia liberdade a tuta-e-meia

E direitos humanos a pataco

A democracia então era à macheia

E quem quisesse podia encher o saco



As coisas que eram caras sem razão

Passariam em seguida a ser baratas

E com o "direito sagrado" à habitação

Punham a casa ao preço das batatas



Mas depois, pouco tempo era passado

E quase sem ninguém se aperceber

O bico dos pavões ficou curvado

E as unhas começaram-lhe a crescer



Soube-se já no fim desta disputa

Que os ditos pavões não eram mais

Que outra espécie de abutres mais astuta

A disputar a presa aos seus iguais



Cresceu assim impante e agitado

O Portugal moderno e abrilento

Com brigas e barulho em todo o lado

Que todos queriam à uma ir lá para dentro



Ouvir falar de Abril era um encanto

Nunca ninguém ouvira assim falar

Que nenhum aldrabão aldrabou tanto

Antes dos abrilentos cá chegar



Até que de Paris chegou então

O maior abrilento lusitano

Espécie de D. Sebastião

Verbo guerreiro e alma de cigano



A língua afiada e nada presa

O discurso meloso, apadralhado

E muito não tardou que sua alteza

Fosse ocupar o trono abandonado



A partir desse dia o Zé Povinho

Não tinha Portugal amordaçado

Era livre como um passarinho

E o pão nunca mais foi aumentado



A fartura subiu a tal altura

Que quase não se queria acreditar

E a liberdade também, tudo à mistura

Como podemos hoje constatar



Foi assim que a vida em Portugal

Se tornou neste sonho encantador

Somos em corrupção o principal

E na droga não se pode estar pior



Na prostituição temos progresso

Com leis sabichonas e modernas

E não parou mais de haver sucesso

Para quem ganha a vida abrindo as pernas



Nas estradas, nos campos e nas matas

Nas ruas, nas esquinas da cidade

Vendem-se brancas, pretas e mulatas

Porque abril trouxe a liberdade



E depois deste progresso, sabiamente

Temos ainda em SIDA a primazia

Passamos a Europa toda à frente

Inclusive a Grécia e a Turquia



De Março a Março

Abril foi um sonho derradeiro

Sonho tardio, infantil e vão

Com que sonhara o mundo inteiro

Antes de acordar da sua hibernação



O sonho deixou hoje de fazer sentido

Quem sabe o porto onde vai parar

Quando pilota um barco de leme partido

Ouve rugir o vento e vê crescer o mar



Na surrealidade cega e soberana

Quem pode imaginar um futuro risonho

Quando no topo da ganância humana

O futuro é nada e o real é sonho



O Deus-Mercado, deus-globalizado

É agora o rei deste sistema vil

Rei do petróleo a bem do mercado

Rei do mercado a bem do barril



A carnificina cega da mercancia

Não perdoa mais nem se compadece

A guerra é lucro e nesta circunstância

Rebentando bombas o Mercado cresce



Todo o sonho antigo se evaporou

As manhãs que cantam, o ir mais além

Sonha hoje quem não acordou

Acordado não sonha agora ninguém



Chegamos ao fim duma longa estrada

O rei vai nu mas ninguém o diz

A demagogia, velha e desgraçada

Devora-se a si própria de tão infeliz



Morreu o progresso, esse galo canoro

Que há mil anos canta em cima da estrumeira

Há no ar um cheiro de muito mau agouro

A barbárie antiga que tão mal cheira



A obra-prima, a civilização

Dos grandes heróis e dos grandes santos

É esta gangrena de corrupção

Podridão e droga por todos os cantos



É a guerra, assaz, divinizada

Em nome da paz e da filantropia

É a humanidade aos milhões queimada

Ou morta à fome aos milhares por dia



No jargão cego e surdo do Mercado

O crime passou a feito de heroísmo

A morte e a vida tudo é contado

Na base dos lucros do Capitalismo



Do outro lado, mas qual lado?

Dizem os sábios ... mora o Terrorismo.



Leonel Santos, Fevereiro 2003

O ÚLTIMO DOS DEUSES

O ÚLTIMO DOS DEUSES



Bombas e Droga (III)

1

Depois do rendimento de milhões

Com bombas progressistas e aviões

A Civilização gloriosa

Tem esta genial mercadoria

Ao serviço da lei da mais-valia

E do Novo Mundo cor-de-rosa

2

Bombas, guerras, droga, tudo, enfim

Vai transformar a Terra num jardim

E dá cada dia novos passos

Gente pobre, gente morta ou gente viva

O Mercado usa a mesma estimativa

A todos estendendo os longos braços

3

Se o drogado é mercadoria

Tem um ciclo a cumprir, uma valia

Até que outro tome o seu lugar

E as bombas vão caindo em qualquer lado

Conforme são precisas ao Mercado

Que não pode viver se não matar

4

Se a máquina superou o seu valor

Entenda o antigo produtor

Que é consumidor mas não é gente

E que na bitola do Mercado

Não é mais nem menos que o drogado

Comprar droga ou pão não é diferente

5

É preciso consumir, consumir sempre

Correr cada vez mais, cega e loucamente

Sem meta, sem destino e sem estrada

Porque a sociedade mercantil

É esta corrida, louca e imbecil

Febril e infinita atrás do nada

6

E como a droga traz altas receitas

Ela é o deus das mafias e das seitas

Das religiões e dos Estados

E as benfeitorias sociais

Como as carraças nos irracionais

Agarram-se às misérias dos drogados

7

E por absurdo do Mercado

Até não há drogado ou viciado

As drogas são doenças naturais

E assim há doenças e não vícios

A justificar os bons ofícios

Das piedosas pragas sociais

8

Por trás da prevenção fantoche dos Estados

Há sempre mil barões e ricos instalados

À custa dos drogados, escravos actuais

Que após serem presa de falcões

Se afogam na lama de instituições

Com nomes sonantes e gula de chacais

9

Assim o drogado serve duplamente

No campo aberto, o falcão e a serpente

E o voraz abutre, por fim, num lar fechado

Não foi feito para servir leis

É tesouro de padres, de doutores e reis

É o ouro fino do novo Mercado

10

Almas piedosas, doces, solidárias

Associações, igrejas, seitas várias

Penduradas nos cofres estatais

Arrancam aqui a última fatia

Desta genial mercadoria

Que é depois da bomba o que vale mais

11

Na sua lei cega, o Mercado brama

Que se acenda a Guerra ou se apague a chama

Com a frieza da pedra das montanhas

Cruel e absurdo, este Adamastor

Vai connosco onde a gente for

Cavalga a força das nossas entranhas

12

O Mal e o Bem não serão jamais

Inimigos velhos e mortais

À luz do valor e do Mercado

A diferença só consta do dinheiro

Se a bomba vale mais do que o carneiro

A bala vale menos que o drogado



Lisboa, Junho de 2002

Leonel Santos

O ÚLTIMO DOS DEUSES

O ÚLTIMO DOS DEUSES

O Mercado (I)

Eis o deus-supremo, O Deus-Mercadoria

Valor único na vida, árida e vazia

Foram-se os salvadores, morreram as quimeras

Os sonhos grandes e ocos de outras eras

O Deus-Mercado, único e global,

É agora o grande deus universal

Ricos e pobres, crentes e ateus

Se curvam e rojam a este grande deus

Eis a herança sagrado-profana

De heróis e génios da espécie humana.

Tudo se afundou na doce fantasia

Que um sistema irracional e cego prometia

Toda a luta inglória por um mundo diferente

Ajudou este deus pançudo e decadente

Hoje há Mercado e consumidores... Morra de fome

E morra depressa, que não interessa, se não consome

Para e pensa humanidade insana

Que foi o pensamento que te fez humana!

Eu ouço ao longe ó louca Humanidade

Um grito, um som, talvez seja a Verdade

Talvez o desespero, eu não sei bem

E profetas agora o Mundo já não tem.

Onde param os heróis, os sábios, onde estão

Os valores a que chamais a civilização?

Onde está a Lei, a Justiça, a Glória

E a Paz onde está, esse mito da História?

Só o Deus-Mercado, absurdo e global

Reina nos escombros dum mundo irracional

Não há mais paz - acabou - nem justiça, nem nexo

Há guerra e armas, há droga e sexo

A Guerra tornou-se um valor permanente

Porque o valor, se torna maior, matando mais gente.

Viva o Drogado, que a bem do Mercado, é outro valor

Viva este ente, se já não é gente é consumidor.

Mulheres e crianças, tudo se vende, a bem do Mercado

O deus papa-gente, absurdo, inclemente, mas civilizado.

A Guerra tornou-se o grande primado à face da Terra

Porque o Mercado, deus desgraçado, não vive sem guerra

Aquele Terrorismo que aponta o abismo, quem é? Não sabeis

Pois é o Mercado, que já desesperado, não usa mais leis.

Meio globo morre de fome, não vive, não come, que hipocrisia

Do outro lado estoira o Mercado, porque não vende mercadoria

Eis as regras duras e cegas, do super-mundo civilizado

Toda a desordem da Nova Ordem do Deus-Mercado.



Lisboa, Maio de 2002

Leonel Santos

OS PERIGOS DA PAZ

OS PERIGOS DA PAZ



A paz é um perigo permanente

Que o Sistema em si nunca tolera

Porque o Sistema em paz é uma quimera

Que a todo o raciocínio é evidente



Por isso a guerra investe em armamento

Para poder manter a paz ausente

E empregando vai milhões de gente

Enquanto a paz emprega zero por cento



E agora que o trabalho feneceu

E o emprego ficou mais disputado

O perigo da paz ainda cresceu

Porque não dá emprego em nenhum lado



Todos dizem que lutam contra a guerra

Mas isso só se diz e não se faz

Porque a paz está feita sobre a Terra

A guerra é que não deixa haver a paz



Mas a paz é um perigo permanente

Por muitos mais motivos e razões

Não dá ordenado nem patente

Nem vende armas e bombas por milhões



Se bem que nos tempos actuais

A guerra haja feito mais progressos

A paz e o Sistema são avessos

E os valores da guerra são vitais



O terrorismo é neste sentido

Um grande passo em frente contra a paz

Mas é preciso agora ser mantido

Para a guerra não andar p'ra trás



Da cirúrgica-bomba à nuclear

Da bomba-inteligente ao "predador"

Todo esse humanismo exemplar

Que a Civilização tem ao dispor



Terá de estar atento e ser ligeiro

Porque a paz é perigosa e aliás

As armas todas rendem bom dinheiro

E vendem-se com guerra e não com paz



Eis o absurdo, a utopia

O mito do Sistema e a aparência

A Civilização parindo a barbaria

O Progresso parindo a decadência



A obra-prima da mitologia

O futuro das gentes que pisam a Terra

A doença, a fome e a guerra

Tudo transformado em Mercadoria



Lisboa, Novembro de 2005

Leonel Santos

ARGÉLIA

ARGÉLIA

A DITADURA DEMOCRÁTICA

Naquela terra doce e bestial

Reinava a democracia

O povo trabalhava, é natural

E o resto, passeava e comia



Rezava-se ao Alá que é um senhor

Que ajuda o que passeava a passear

E também com carinho e com amor

Ajuda o que trabalha a não parar



Este Alá é o mesmo que o "Há cá"

Que ajuda o que não pode a não poder

Mas é da democracia, para já

Aquilo que hoje tenho para dizer



Esse maná, que aqui no Ocidente

Abunda e tem caído em doses tais

Que qualquer democrata não desmente

Que só no outro mundo existe mais



Mas seja como for, a tal gentinha

Lá ia vivendo e rindo o dia-a-dia

Tinha corrupção sempre fresquinha

Que é o motor de tal democracia



E se às vezes uma Câmara do Alá

Lhe arrasava a barraca onde vivia

Como faz a Câmara do "Há cá"

A malta protestava mas comia



Embora não chegasse o ordenado

E a fome fosse dura e atrevida

Ninguém vivia ali desanimado

Tinha a democracia garantida



Em nenhuma selva de certeza

A vida era mais doce e encantada

O que tinha mais poder e mais esperteza

É que era sempre o chefe da manada



Mas como o democrata é cem por cento

Avesso em questões de ditadura

Convocou eleições p`ro Parlamento

Não se fosse estragar tanta fartura



Porém, o povo ingrato e atrasado

Quando chegou ao dia de eleições

Não quis votar nos bons, este "Malvado"

E acabou por ir votar pelos ladrões



Só que a democracia sendo boa

Nunca seria parva com certeza

Nem reinava portanto ali à toa

E no jogo que fez, pôs-se à defesa



Então o democrata de serviço

Que por acaso era um militar

Vendo contra ele o seu feitiço

Mandou chamar a tropa e pôs-se à´dar



E foi assim que a Argélia democrata

Se conseguiu livrar dos tais fanáticos

Hoje ali se prende, rouba e mata

Mas apenas em moldes democráticos



O pai e a mãe do FUNDAMENTALISMO

É o democrata astuto e corrompido

É ele que lança os povos no abismo

Depois dos Ter roubado e Ter traído



Leonel Santos(*) (Lx. 27-07-92)

Os lobos de Milosevic e os chacais da Nato

Os lobos de Milosevic e os chacais da Nato


«Então ó Nato:
Matas ou não matas?
Mato!»
A minha missão é matar, é destruir
Semear o ódio na senda do porvir.
Cortar as crianças e os velhos em pedaços
Espalhar cabeças, e pernas e braços
Por entre as ruínas de mil habitações
Reduzir tudo a chamas, a cinzas e a carvões
Numa orgia de morte e de tormento
Arrancar lágrimas, atirar ao vento
Gritos e mais gritos de desespero e dor
Eu não sou aquele Adamastor
Que ousou lutar nos arraiais das História
Aqui há cobardia...
Não há batalhas, nem luta, nem glória
Mato indefesos, famintos, desgraçados
Queimo os montes, as serras e os prados
Os filhos na barriga das mães
Os homens e os cães
As creches, as escolas, cemitérios e hospitais
Despejo os meus arsenais
Para que possa enche-los de novo e ainda
matar mais
Mandam-me os donos da CIA
As Mafias do armamento
É este mar de tormento
A minha mercadoria
Manda-me o M-16
E a Mossad judia
Faço à bomba as novas leis
Construo a Terceira Via
Queimo pontes, queimo estradas
Sanatórios, refinarias
E nas ruínas sombrias
Enterro as gentes queimadas
E para que a guerra se alongue e multiplique
Mil vezes agradeço a Milosevic
Meu amigo, meu irmão, meu aliado
Que tão boa ajuda me tem dado
Nesta nova matança cor-de-rosa
De que Hitler ficaria envergonhado
Fiz da ONU a minha cangalheira
Posso já queimar a Terra inteira
Em nome da Justiça e da Razão
Só onde houver tiranos é que não
Que um tirano não mata outro tirano
Matar gente indefesa é mais humano
Eu hoje sou carrasco e sou juiz
Hitler não passou de um aprendiz
Na arte de matar, ao pé de mim
Farei a Europa num jardim
Com bombas de napalme e com estilhaços
Sou eu que mando aí nesses palhaços
Que vão roubando e rindo e que por isso
Não podem prescindir do meu serviço
Se outrora fui mal vista e mal amada
Hoje sou "socialista" e sou civilizada
E vingo disfarçada Hitler nos Balcãs
Até que venham outros amanhãs
E as minhas bombas generosas
Façam da Europa um mar de rosas
Lisboa, Maio de 1999
Abul-Ala al-Maari