SONETOS

SONETOS


I

Caminho sobre montes, evitando
A sarça emaranhada e o carrasco
Piso tufos de cisto  e de verbasco
De agrestes acúleos me cuidando

Aves, vejo-as livres se afastando
Subido de surpresa algum penhasco
Nos ramos de aroeira o pisco, o chasco
Vão negras bagas debicando

A  Aurora clareia, pincelando
De ouro e rosa os céus do Oriente
E eu só , ninguém mais, por ali ando

Talvez esteja feliz, talvez contente
Mas sinto mais que vejo, meditando
E menos cuida quem vê do que quem sente



I I

Vejo agora ao longe, no mar, distintamente
Uma esteira de água buliçosa
E a Aurora já mais ouro que rosa
Um horizonte me dá mais abrangente

Pressinto leve essência subtilmente
Numa atmosfera deleitosa
E na flor da esteva graciosa
Há um ar de noiva adolescente

Ao longe e ao perto há alecrim
E aves nestes montes viridentes
Voam livres, em bandos sobre mim

Mas um Sistema de ambições diferentes
Que nos talha a Vida de principio ao fim
Sonha Valor e Lucro naquelas vertentes


I I I

O solo afogueado, safado, ressequido
Bebeu há muito a água que o Inverno trouxe 
Mas tudo verdeja assim como se fosse
De algum secreto rio humedecido

O rosmaninho até algo atrevido
Pelos vastos montes espalhou-se
Porém o tojo-arnal encarniçou-se
Contra algum forasteiro mais destemido

Vejo troviscos de braços estendidos
O zimbro altivo, atenta sentinela
Lentiscos de ramos contorcidos

E uma brisa que passa airosa e bela
Vem depôr-nos na face e nos sentidos
Quase sensuais, os beijos dela

 
I V

Todo o réptil que entre os penedos mora
Nas ditas pedras se encarapitou
E busca a borboleta que pousou
O gafanhoto que salta à mesma hora

Da folha da esteva mana agora
Sob o sol que a tanto a obrigou
A seiva que sempre destilou
Contra os raios solares, como quem chora

Na arruda semi-seca os caracóis
Parecem nestas horas quase mortos
Até que a noite os vem acordar depois

Eufórbias emaranham os braços tortos
E dão alguma sombra aos rouxinóis
Em funções amorosas absortos


V

Mas nestes montes ledos onde impera
Um silêncio tão quedo e tão profundo
Uma luta há que escapa ao mundo
Silenciosa embora ,mas severa

É que a nossa Estrela não tolera
Que o solo mal ou bem seja fecundo
Sem que ela lá do céu rotundo
Toque a própria vida que ela gera

Na luta pela vida e pelo espaço
Cada planta aqui é obrigada
A conquistar à força o seu pedaço

E o Homem de forma alienada
Copiou a Natureza passo a passo
Na sua forma cega inopinada

V I

E imitando as regras naturais
Ora destruidor, ora indulgente
Construiu um Sistema inconsistente
Assente em padrões irracionais

Se a incônscia Natureza meios brutais
Nos impôs no passado e no presente
Também nos cedeu alcance e mente
Para poder avançar melhor e mais

Comtudo do bruto modelo original
Das naturais leis o néscio humano
Fez uma cópia infiel e mais brutal

E preso nos deixou com mágoa e dano
A pior selva que rege o animal
Até que cesse um  dia o nosso engano

V I I

Criou deuses, santos, alimárias
Como que uma segunda Natureza
Milhentas ilusõs como certeza
Civilizações pobres  e párias

Inventou mitos, diabos, coisas várias
Fetiches que traz ao peito e reza
O dinheiro deus da fome e da riqueza
A que todas as normas são contrárias

E exibindo a vida do avesso
Com fome, morte e guerra em todo o lado
Começou a vender-nos o Progresso

Dum Sistema generoso e avançado
E a Crise… vejam bem que retrocesso!
Quer matar este sonho iluminado


VIII

Culpa-se o marginal, o patrão e o banqueiro
Para tentar manter o Sistema intacto
Um mundo fictício e abstracto
Movido por escravos do dinheiro

É assim que o Sistema inteiro
Raciocina bronco em seu formato
Onde é mais livre o mero rato
Que qualquer cientista ou engenheiro

Chegamos assim ao fim duma jornada
No seio dum Sistema irracional
Fatigado de andar, sem andar nada

Presos num cárcere de ferro universal
Onde a Vida humana é sufocada
Enquanto a besta vive, bem ou mal.


LEONEL SANTOS
Julho 2011

A CIGARRA E A FORMIGA

A CIGARRA E A FORMIGA*


CONTA UMA LENDA ANTIGA
QUE A CIGARRA NO VERÃO
SEMPRE VIVEU DA CANTIGA
MAS TRABALHAR É QUE NÃO

A formiga não cantava
Trabalhava o Verão inteiro
Para atestar o formigueiro…
Quando o Inverno chegava
Comia que se fartava
Enchia bem a barriga
A cigarra velha amiga
Do descanso e do bem-estar
Passava o dia a cantar
CONTA UMA LENDA ANTIGA

Quando Dezembro chegava
A cigarra não se ouvia
Com a barriga vazia
Sozinha se lamentava
Quando a formiga almoçava
Resolveu pedir-lhe então
Disse-lhe a formiga…Não!
Usa outro expediente…
Faz o mesmo muita gente
QUE A CIGARRA NO VERÃO!

Mas hoje sem lei nem garra
No mundo tudo mudou
Porque o trabalho acabou
Pede a formiga à cigarra
E nesta história bizarra
Não há ninguém que me diga
Se acha bem a formiga
Pedir à cigarra pão
A quem…lá diz o rifão:
SEMPRE VIVEU DA CANTIGA

A vida nunca foi séria
Esteve sempre ao contrário
E no conto do vigário
Usa ainda a mesma léria
Vendo a cigarra a miséria
E a formiga sem pão
Pede mil e dá-lhe um grão
E diz que ajuda o alheio
P’ra viver de papo cheio
MAS TRABALHAR É QUE NÃO!

*Fábulas antigas, vantagens actuais.
Lisboa, Fevereiro 2011
Leonel Santos

O SISTEMA FETICHISTA

O SISTEMA FETICHISTA

Onde estão os mitos, os deuses salvadores
Que nos fizeram à sua semelhança
O modernismo, o progresso, o futuro, a esperança
Os vários chefes de todas as cores?

Onde estão, quando as vagas são maiores
E bramam com maior perseverança
Quando a bordo da Nau não há bonança
E é levada por maus navegadores?

Não há heróis, não há deuses, não há nada
Há só um sistema fetichista, um amuleto
Espécie de bugiganga que anda pendurada

Ao nosso pescoço de modo algo discreto
Que pode ser um corno, uma cruz ou uma fada
E a quem se pede que o mar esteja quieto.

Leonel Santos
Janeiro, 2011

Do Maniqueísmo (I)


Do Maniqueísmo (I)

Desde tempos que escapam à memória
Os interesses dividiram entre si
Os Humanos que andam por aqui
Escrevendo mal ou bem a sua História
Com mais ignominia que glória
Onde mais gente chora do que ri

E na luta por bens e por riqueza
Que o Homem vai tentando adquirir
Vemos uns descer outros subir
Contra a sua própria natureza
Numa vida composta de crueza
Que o Homem não quer deixar cair

Depois de chegar onde chegamos
Em tecnologia e em saber
De muito matar, muito morrer
Em lutas que nunca abandonamos
Em vez de mais subir mais se enterramos
Quando o contrário devia acontecer

Os sábios nos digam onde vamos
E se isso é saber ou não saber
O que é que andamos a aprender
Para depois de saber, saber que erramos
Quando é do Saber que nós saibamos
Que todo o bem-estar tem de nascer

Aqui onde somos projectados
Uns contra os outros de mil jeitos
Uns porque roubam e têm defeitos
Outros que não roubam e são roubados
Contestamos e somos contestados
Por causas que se escondem com efeitos

A morte do Trabalho e do Valor
Exige-nos, porém, nova linguagem
Novo pensamento e nova imagem
Diferentes do tempo anterior
E porque a vida exige mais rigor
Impõe-nos passar nova mensagem

A voz que no passado nos legou
Ódio cego, intemperança e desvario
Nada nos deu no tempo que partiu
E nada nos dará no que ficou
Porque o Valor que sempre nos taxou
Em Bons e Ruins nos dividiu

Aqueles que inda hoje em sua mente
Se têm por cordeiros imaculados
E tomam por lobos disfarçados
Quantos aqui têm pensar diferente
Têm de ver que todos somos gente
No barco do Sistema naufragados

Nem lobos, nem cordeiros, simplesmente
Esta nossa espécie que se tem
Por ser das mais espécies pai e mãe
Não pode prosseguir asnalmente
Neste dualismo inconsciente
Que de míticas eras advém

Foi, aliás na Pérsia certo dia
Que um dito Mani, grave e sombrio
Pensando ver o Mundo, instituiu
Uma obscura e vã filosofia
Que com todos os males que trazia
Pelo globo inteiro se difundiu

Por si a Natureza é dividida
E o Homem também de modo igual
Mani dividiu em Bem e Mal
E em Trevas e Luz a própria Vida
Num dualismo cego e suicida
Que perpetua a luta universal

Eis porque o Sistema nos cindiu
No rico rapace e no roubado
E o nosso viver foi copiado
Daquilo que Mani instituiu
Mas se o nome mudou não impediu
Ter o mal de Mani continuado

Eis exploradores e espoliados
Bons e Maus, Ricos e Mendigos
Tratados como géneros inimigos
E uns contra os outros atiradosPor partidos e seres iluminados
E por ódios modernos e antigos

Sendo o Homem uno, indivisível
Nada nesta farsa faz sentido
Um Sistema do Homem dividido
Só em míticas mentes é possível
E se o Sistema já não é vivível
Então que seja noutro convertido
Leonel Santos
Lisboa, Junho 2010

Do Maniqueísmo (II)

Do Maniqueísmo (II)

Um dia Mani fez dividir
O nosso Mundo em Bem e Mal
E com estes dois opostos a gerir
O Cosmos e a Terra em especial
O Homem não mais pôde existir
Fora deste combate universal

Aqui tem a Guerra contra a Paz
Ali tem o Deus contra o Diabo
Mas a Guerra é a Paz que alguém desfaz
E nos põe atrás do bicho brabo
E as lutas de Deus com Satanás
Nas leis de Mani nunca se acabo

Ouse a Humanidade arrisque e tente
Ver-se destas leis emancipada
Porque há um abismo à nossa frente
Se esta cega Lei não for mudada
Pois o Mal e o Bem somos a gente
É a nossa integridade apunhalada

Contra a Esquerda, eis a Direita
Contra o Explorador o Explorado
Não há vida, há luta, a vida é feita
Deste dualismo encarniçado
Que divide o Homem e não aceita
Que tenhamos um mundo humanizado

Eis o Bom e o Mau estupidamente
Acusando-se em vão do mal que temos
Mas nem maus nem bons, nós somos gente
Que em disputas inúteis nos perdemos
Porque as leis de Mani, miticamente
Nos distorcem o mundo em que vivemos

E assim cada um se vai batendo
Quando mais devia estar unido
E cuidando que ganha vai perdendo
Como sempre tem acontecido
O ódio gera ódio, e ódio havendo
Deixa a razão de estar onde é divido

Ser maniqueísta é ser extremo
É recusar aos mais o pensamento
É fazer reviver Rómulo e Remo
Abel e Caim ao mesmo tempo
É ter um Deus em luta contra o Demo
Nos absconsos confins do Firmamento

Aquele que se crê dono e senhor
Do Mal e do Bem universal
Sempre por cá fez muito pior
Que quantos já por cá fizeram mal
Porque este dualismo opositor
Nos lança num mundo irracional

Aqui não há ladrão, mas há roubado
Não há bons nem maus, existe gente
E um velho Sistema condenado
Que nunca foi humano infelizmente
E hoje mais que nunca no passado
Nos obriga a pensar e ver diferente

Quem poderá olhar como inumano
O rico por que é rico e abastado
Se ser pobre ou rico é desumano
Faça-se um Sistema humanizado
Mas atirar humano contra humano
É salvar um Sistema condenado

Não podem os partidos p’ra salvar
Um Sistema que sempre os bafejou
Pedir ao povo agora p’ra gritar
Contra B ou C que o espoliou
Se há selva, são horas se a mudar
Já que dantes o Homem a não mudou

Mas que nunca os partidos mais guerreiros
Nesta selva obscura e traiçoeira
Voltem a arrastar como carneiros
Pessoas inocentes p’ra fogueira
Se justos queremos ser e justiceiros
Teremos de içar nova bandeira

Leonel Santos
Lisboa, Junho 2010

A Politica de Decadência e a Decadência dos Políticos


A Politica de Decadência e a Decadência dos Políticos

Que gritaria é esta e desatino
Reina nesta sala e nesta gente
Onde, dizem, se busca o bem somente
Mas onde bem algum não descortino
E mais julgo ouvir um som caprino
Do que voz humana propriamente

O que metade afirma, outra desmente
Todos são heróis, quando não santos
Mas o barulho chega aos quatro cantos
Num debate obscuro e permanente
E ninguém soube nunca o que esta gente
Aqui está fazendo há anos tantos

Jura cada um que tem na mão
Soluções nacionais e actuais
Mas nenhum teve nem tem mais
Nem razões actuais nem solução
Cada dia que passa passa em vão
Com discursos menos racionais

Há sorrisos de troça e ironia
Se o tribuno do lado é rebatido
Por outro charlatão mais entendido
Na mesma vasta e vã charlataria
Vê-se um ar de comédia onde devia
Ver-se um ar de respeito enaltecido

Esta gesta de sábios outonais
Para quem os ouve e não conhece
Medicamentos têm de toda a espécie
Para todos os males nacionais
Talvez morra o País com cura a mais
Em vez de morrer do que padece

Todos oferecem fartura e têm p’ra dar
Trabalho em abundância noite e dia
Enquanto o desemprego se apropria
De tudo o que estava a funcionar
Vamos longe assim por este andar
Para onde é que ninguém nos anuncia

Todos são sinceros e patriotas
Primeiro está o País, eles no fim
Fica-lhe muito bem falar assim
Contra corrupção, Valor ou notas
Quem adore antigas anedotas
Veja na TV este festim

Eles têm nas palavras no condão
Dos xamãs das selvas tropicais
Com cura p’ra todos os mortais
E o poder de fazer pedras em pão
Nunca os sábios mais sábios saberão
Medir o seu saber ou saber mais

Com o trabalho morto e sem Valor
Que ponha o Sistema em movimento
Todos que têm ali seu alto assento
Têm a chave do mundo superior
E qualquer fedelho é um doutor
Que oferece Céu e Terra ao memo tempo

Como numa rábula teatral
Onde a comédia cega encobre o drama
Qualquer actor dos que ali mama
Numa prosa pouco natural
Exala um cheiro a mofo social
E sente-se a barbárie que já nos chama

Leonel Santos
Lisboa, Abril de 2010

O Fim Do Valor


O Fim Do Valor

Eis o tudo que é nada, o dinheiro deus
A quem o homem vive agrilhoado
Como no Cáucaso duro, o velho Zeus
Ao pobre Prometeu fez no passado
Um cativo aqui dos erros seus
Outro por leis imigas condenado

Um que o fogo nos deu p’ra ser usado
Em prol da ventura e bem humano
Outro por interesses arrastado
Teceu por si próprio o seu engano
Percebendo tarde que o Mercado
Em vez de seu escravo é seu tirano

Assim o dinheiro o escravizou
Ao jugo de trabalho prepotente
Trabalho que morreu mas não levou
Com a sua morte o mal presente
Porque o Sistema nunca funcionou
Apesar de humano, humanamente

Nunca Dédalo um dia imaginou
Que o seu Labirinto poderia
Ser o próprio mundo onde o habitou
Num longínquo futuro que não previa
E Ariadne já se retirou
Com o fio que Teseu se conduzia

Se o Homem do um mundo produtor
Deixou de produzir, hoje consome
Mas ser sem produzir consumidor
Com que Valor se calça, veste e come
Eis a babilónia do Valor
Onde Babel foi buscar o nome

Retirada por fim a produção
Da humana mão que conduzia
Nada mais terá valoração
Porque o Valor morreu no mesmo dia
Possa embora a terra dar o grão
E a máquina fazer mercadoria

Valor, rei supremo, rei senhor
Que a cegueira do lucro alimentou
Tu és o rei do nada, o mal maior
De quanto mal a Terra já gerou
A ilusão dum mundo superior
A última ilusão que se apagou

Não vê a gente sábia e ilustrada
Que na teta do Valor sempre mamou
Que foi a sua nau já afundada
Na infundada rota que traçou
Porque zarpou do nada para o nada
E o nada foi o tudo onde chegou

Quando por Lâmia doce, Lâmia bela
Júpiter, deus supremo, suspirava
Juno ciumenta da donzela
A transformá-la em monstro se apressava
Tornando em desgraça a graça dela
Que vingança menor lhe não chegava

Também o nosso deus, deus derradeiro
Disfarçado entre nós com manha e arte
É um monstro que abraça o mundo inteiro
Como a ira de Juno em toda a parte
O tudo que é nada, o deus dinheiro
Atrás de que se arrasta o fero Marte


Abul-Ala al-Maari

Lisboa, Agosto 2009

Os vendedores de promessas


Os vendedores de promessas


Eu vejo na rua um bando de truões
Que dão às criancinhas beijinhos e balões
E beijam as mulheres com euforia
Na venda de qualquer mercadoria
Que apregoam com voz esganiçada
Que da primeira vez ninguém paga nada
São molhos e molhos de promessas
Que são oferecidas em grandes remessas
Com longos sorrisos e largos abraços
De papagaios palrantes e alguns palhaços
Toques de pandeiro, gaitas e tambores
Juntas com papeis, bandeiras e flores
E fotografias de importante gente
Tornada humanista repentinamente
Que á guisa de actores gritam aos ouvintes
Que vão ajudar os contribuintes
E nos embalam com doces melopeias
Como outrora aos nautas faziam as sereias
Prometendo montões de bem-estar
Com um sorriso oco, cínico e alvar
Tudo a bem dos pobres e dos fracos
Dão canetas, aventais, bonés e sacos
E prometem justiça com firmeza
Habitação aos pobres, cama e mesa
E qualquer partido que ganhar
Reformas e pensões tudo a dobrar
E trabalho p’ra malta a pontapés
A ganhar por dia o salário dum mês
Para já dizem jornais e televisões
Que há falta de padres, missas e sermões
Quanto às habitações vão ser baratas
Talvez, um pouco acima das batatas
E serão ainda grátis, a saúde e escola
Construção de igrejas campos de bola
E de porta em porta, rua em rua
Prometem uns o Sol, outros a Lua
Avisando que quem souber escolher
Até pode, só com o voto, enriquecer
Escuse portanto, o Euromilhões
E saiba escolher nas eleições
Verá que a Crise logo se evapora
E o dinheiro borbulha a toda a hora
Como a água a sair de uma nascente
Ou, a banha da cobra antigamente
Que curava, sem falhar, qualquer doença
Inclusive velhos e cegos de nascença
O voto e exactamente igual
Semeiam-se algumas notas no quintal
E passado um mês ou mês e meio
Vai-se lá buscar um saco cheio
E os bandos vão percorrendo as feiras
Prometem venda cara às vendedeiras
E a compra barata à freguesia
É o último grito em democracia
Comprar caro e vender barato
Será a solução deste Sistema ingrato
Quanto aos impostos, os partidos
Acham que devem ser todos banidos
E cada um terá maior fartura
Que aquela que precisa e que procura
Porque a Crise não tem escapadela
Com toda esta gente a malhar nela
Gente séria, gente sábia e tão dotada
Que consegue ver tudo onde está nada
A não ser as trevas e o escuro
E um sonho morto… chamado futuro
Mas… tira-te tu p’ra me pôr eu
Foi a única história que esta gente leu
Todos tão diferentes e todos tão iguais
Apenas votam juntos para ganhar mais
E enquanto tudo a funda no abismo
Vão grunhindo tretas de humanismo
Que sacrifício duro, que luta tão atroz
Esta gente trava aqui por todos nós
Há que imortalizar tão nobre espécie
Quando tanta Palha nos oferece!

Abul-Alá al-Maari
Lisboa, Agosto 2009

A Última Galé

A Última Galé



O céu carregado, o vento agreste

A galé vacila sobre os mares

Rumo ao futuro do bem terrestre

Atestado de esperanças milenares

E de promessas vãs que a mente veste

De sonhos que a razão diluí nos ares



No seu ventre ruma a decepção

Do Sistema e do mundo em que vivemos

E o diário cruel da ilusão

De todas as galés que conhecemos

Num mar vil e cego de ambição

Onde o abismo espera que cheguemos



A tempestade assola mar e terra

Mas a galé insiste em sua rota

Leva a estupidez, a morte, a guerra

A pilotar o leme e a derrota

Sem que veja nas trevas quanto erra

Quem a tão cega empresa se devota



A cada hora que passa um novo rombo

No casco da galé se configura

E ecoa nos ares um novo estrondo

De maior e mais forte envergadura

Porque a galé se vai expondo

Bem menos à razão do que à loucura



À sua volta há contos de fadas

Lendas tão infantis quanto banais

Milhões de quimeras inventadas

Para que tem vista não ver mais

Que falsas visões que são tomadas

Por subidos valores e seres reais



E assim a galé voga perdida

Nas vagas da insânia que buscou

Porque fugindo à luz fugiu à vida

Que lhe dava a luz que rejeitou

Rumo à tragédia com que lida

Agora que o encanto se quebrou



Derradeira galé da Humanidade

Símbolo dum Sistema irracional

Onde a mentira manda na Verdade

E a Vida não tem valor real

Porque não existe validade

Fora do valor comercial



Galé de escravos e de ilotas

Onde tudo se troca e comerceia

Desgraçada mãe de cegas rotas

Opostas à luz que o mundo anseia

Onde o Crime e a Lei se pesa em notas

Embrulhadas em cantos de sereia



Fruto de doutores, padres e reis

De absconso saber nunca provado

Esta galé transporta as duras leis

Com que o mundo tem sido amordaçado

Que não são de campónios bem sabeis

Nem de quantos são pastores de gado



Sem leme, sem futuro nem direcção

A galé cambaleia enquanto erra

Fustigando os escravos do porão

Como se causa sejam desta guerra

Rumo aos baixios da perdição

Onde o raivoso mar abraça a terra



A História da galé que o mar atira

Aos aguçados fios da rocha dura

É o soluço final duma mentira

Presa à utopia que a segura

O sonho dum mundo que delira

Na ilusão do Lucro que procura



Lisboa, Maio 2009

Abul-Ala al-Maari

O último osso

O último osso


No palácio de São Bento
Anda tudo em alvoroço
Por todos ao mesmo tempo
Querer o último osso


Ladrou um lá da bancada
Darei emprego a milhares
Não vale a pena ladrares
Tu nunca fizestes nada
Gritou outro na cambada
Já um tanto sonolento
Um dormia a cem por cento
Recostado com ripanço
Trabalhou-se sem descanso
Naquele dia em São Bento


Ladrou um que estava á frente
Vou aumentar as pensões
Eu vou prender os ladrões
Disse um mais prepotente
Quem manda aqui é a gente
Resmungou outro mais moço
E apertou o pescoço
Daquele que o criticou
E a ladrada não parou
Anda tudo em alvoroço


Todos tinham solução
Para o problema que havia
O que há pouco dormia
Acordou na ocasião
Tinha um decreto na mão
E disse nesse momento
Que por lei do parlamento
O osso lhe pertencia
Levou dentada bravia
De todos ao mesmo tempo


De tal forma era a ladrada
Que já ninguém se entendia
Enquanto a Crise gemia
De levar tanta dentada
A sessão foi adiada
Para depois do almoço
Parece que ainda ouço
Os seus gritos de rapina
Por toda a raça canina
Querer o último osso


Abul-Ala al Maari
Lisboa, Abril 2009

As Ruínas do Futuro

As Ruínas do Futuro


Brama a chamada esquerda com sermões

De católico tom medieval

Gritando a plenos pulmões

Que tem a chave da Crise universal

E emprego e dinheiro aos trambolhões

Para todo o sistema social



Nem padre, nem bispo, nem profeta

Campeões do milagre em alta escala

Tem solução alguma mais completa

Para queimar a Crise e excomunga-la

Só a esquerda pia, tem directa

Assistência do Céu p'ra extermina-la



E como um abutre lazarado

Vendo uma alcateia em luta acesa

Lá dum alto cume alcantilado

Espera da sorte uma surpresa

E grasna para abocar algum bocado

Fingindo que tem pena da presa



A chamada direita alvoroçada

Grasna no mesmo tom à pobre gente

Mas nunca ninguém distingue nada

Porque nada nas duas é diferente

Temendo cada uma ser roubada

Pelo fervor tenaz da concorrente



E cada dia que passa cresce a ira

Enquanto o Sistema se desfaz

Porque um tira mais do que outro tira

E outro quer tirar não é capaz

Num mundo ébrio de mentira

Onde a maior mentira é a da paz



Porque não vos unis bandos ciosos

De reger uma nova Sociedade

Onde não hajam mais chefes fogosos

Os deuses e os donos da Verdade

São figuras de tempos nebulosos

Que apagaram a luz da Humanidade



Pergunto às bestas que conheço

Em que espécie afinal cabemos nós

Quando após milénios de "progresso"

Á nossa frente há fantasmas sós

E o crime e a miséria são o berço

Da selva que a Vida nos impôs



Quando a Natureza nossa mãe

Nos deu mais -valias racionais

E o nosso Sistema com desdém

Essa Lei trocou por leis venais

Eis o Abismo que nos vem

E nos diz com firmeza em tons brutais:



Essa estrada insana por onde caminhais

Destruindo a Natureza que um dia vos gerou

Matando-se uns aos outros como irracionais

Em busca do Valor que sempre vos cegou

Essa estrada findou, já não existe mais

Somos as ruínas dum mundo que acabou



Ser Homem não é ser predador

Da sua própria espécie e das restantes

Nem montar um palco e ser actor

Da tragédia que assola os semelhantes

Alando o Fetiche a deus maior

Que sempre vos regeu, agora e dantes



De hoje em dia caminhais na bruma

Como um barco perdido entre penedos

Pedaços de madeira, ferro e espuma

Arestas e cristas de rochedos

Não há no Sistema esperança alguma

Quando é Ele o pai dos vossos medos





Lisboa, Abril 2009

Abul-Ala al-Maari

Da Crise ao Monstro

Da Crise ao Monstro




Há quem lhe chame Crise, muito embora

O Monstro ande por’i desaustinado

Na Terra onde nasceu e onde mora

Com o nome que teve no passado

Devorando milhões a toda a hora

Roubando e matando em todo o lado



Se esqueça o colossal Adamastor

E a antiga lenda que o gerou

Que este Monstro é muito superior

Ao que a lenda antiga nos deixou

É a Besta suprema, o deus Valor

Que sempre em nossos pés se deslocou



É chamado de Crise, por interesse

De ocultar-lhe o nome e a figura

Porque apavora o Mundo e o estremece

Como qualquer medonha criatura

Mas já por todo o Mundo a nossa espécie

Lhe experimenta a sanha e a loucura



Armas, drogas, escravos repintados

Orgãos, corrupção, pedofilia

A miséria, a doença, os desgraçados

Onde a Igreja engorda a padraria

São negócios de lucros avultados

Com que o Monstro vive o dia a dia



A cada hora há nos poluídos ares

Um som cavo de gritos aflitivos

Porque o Monstro trucida nos altares

Da guerra e da paz, mortos e vivos

E impele à pobreza mais milhares

De novos miseráveis e cativos



Segundo o fetiche dos Mercados

Qualquer humana criatura

É vendida inteira ou aos bocados

Mas se o agente humano não figura

Todos os Valores são anulados

Nas leis da oferta e da procura



Abraçando a Terra, qual serpente

O Monstro sufoca em seus anéis

O Mundo que esperneia inutilmente

Na teia irracional das suas leis

Onde o virus do Sistema é mais potente

Que o de todas as taipans e cascavéis



Com a morte do Trabalho na presença

O Monstro se tornou mais atrevido

Sonhando com a guerra e a ofensa

E outros atributos de bandido

E entre bestas e homens a diferença

Cada dia fará menos sentido



Quando a droga mata meio mundo

E ao outro meio lhe mata a fome

Vemos que a loucura é quem no fundo

Está regendo o Mundo em nosso nome

E o Monstro venal, assaz imundo

Devorando os dejectos do que come



Segundo economistas mundiais

O Monstro não tem nem pai nem mãe

Mas há quem afirme que os seus pais

Descendem duma tribo, que advém

De antepassados canibais

E quanto mais comer, mais fome tem!



Lisboa Dezembro de 2008



Leonel Santos

DIÁRIO DA SELVA II (O PADRE)

DIÁRIO DA SELVA II (O PADRE)




Quem é essa abantesma que apressada

Caminha entre os andantes, rua fora

De fraldas ao vento, onde mora

Uma imagem no tempo ultrapassada

Com saia comprida e mal cuidada

De um negro profundo, cor de amora

E que promete o Céu a toda a hora

Mas apenas tira e não dá nada



A sua negrura decadente

E o seu andar desconcertado

O seu olhar desconfiado

Em nada condiz com o ambiente

Olha para o chão, não fita a gente

Que passa de um e outro lado

Como um bicho qualquer semi-espantado

Para quem este sitio é bem diferente



Tem um ar sombrio, comprometido

De quem algo deve à sociedade

E carrega aos ombros na verdade

Um passado muito enegrecido

De tanto ter pilhado e ter zurzido

A miseranda e pobre Humanidade

Não respira bem pela cidade

E caminha por isso constrangido



A sua missão é prosseguir

A missão dos seus antepassados

Mas os tempos agora estão mudados

E o tempo que foi não volta a vir

Já ninguém agora vai cair

No inferno por causa dos pecados

E os bens do Céu estão esgotados

Por o deus Valor os destruir



Com a bancarrota da Igreja

O padre se agarra a toda a presa

Às crianças, à fome ou a pobreza

E a todos os lucros que fareja

Buscando as benesses que deseja

Que pague o Estado essa despesa

Porque ninguém casa, ninguém reza

Nem deposita notas na bandeja



Solidariedades, lares, benfeitorias

Para criancinhas, velhos ou drogados

Os padres nem dormem descansados

Vendo os pobres assim de mãos vazias

E mandam rezar avé-marias

Para que eles sejam ajudados

E dêm aos santos, que coitados

Nem comem já todos os dias



Um camelo me diga, ou um jumento

Porque é que um padre vai benzer

A pasta de um estudante, que à'prender

Andou ilustrando o pensamento

Como pode haver descaramento

Para coisa tal acontecer

E como pode alguém obedecer

A tanta estupidez e fingimento



Pode o padre viver eternamente

Que o seu crime nuca se mais apagará

Foi ele quem trouxe para cá

A santíssima lei de queimar gente

E como pode agora no presente

Criticar alguém do mal que há

Quando no Mundo onde ele está

Ele mandou queimar tanto inocente



O símbolo negro da sua missão

É exibir a morte pregada numa cruz

Sem uma criança, sem um raio de luz

Como o fez a Santa Inquisição

Só depois da morte os deuses dão

Comer ao faminto e roupa aos nus

Porque a Vida ao nada se reduz

E o Céu começa no caixão



Nunca se deve usar preservativo

Nem usar anticoncepcionais

Quanto mais miséria tanto mais

O oficio do padre é lucrativo

O infantário, a creche, outro motivo

Que reuna ajudas estatais

Que o padre dá os bens morais

Para o bebé poder manter-se vivo



Quem é essa abantesma que na América

Austrália, Brasil e mais locais

Prègando andou valores morais

Como por aqui na terra Ibérica

E com essa treta cadavérica

Violou crianças virginais

Como outra besta fez jamais

Na era pré ou pós homérica.



Lisboa, Outubro de 2008

Leonel Santos

DIÁRIO DA SELVA I (A DROGA)

DIÁRIO DA SELVA I (A DROGA)




A Costa do Ouro, vem nos jornais

É actualmente a Costa a Coca

Desculpem-me as bestas se esta troca

Causando lhe está danos morais



E a costa da liamba, porque não

Porque não a costa a maconha

E a costa da nossa desvergonha

Ou de toda a nossa podridão



A mesma ganância na essência

Do ouro de Midas e de Creso

E do valor humano igual desprezo

À costa da nossa decadência



A costa moderna do Valor

Que a besta não usa nem conhece

É a vida humana que apodrece

Porque o Valor da morte é superior



A Costa dos Escravos, acho bem

O nome não ter que teve outrora

Quantas costas de escravos há agora

Como pode aqui saber alguém



A droga está na guerra e nos desportos

Na escola, na família, está na vida

A bem do seu Valor tiranicida

Quantos sonhos de vida não são mortos



O chamado progresso social

É este aviltamento e lodo insano

Este turbilhão de insulto humano

Onde só a Morte é racional



Nesta afronta imunda à sanidade

Sempre alguém se arrasta nas cadeias

Nos cantos de vilas e aldeias

E pelas esquinas da cidade



De noite e de dia há sempre alguém

Que o lucro do Mercado assassinou

Para que outro tenha o que ele deixou

Que é a vida que tinha e já não tem



Se outro crime o Mundo não tivesse

Para desonra humana era bastante

Este aviltamento reptante

Dum Sistema que a droga nos fornece



Dispôs-se que o drogado é um doente

Na solércia astuta do Mercado

Pois se acaso fosse um viciado

Não era lucrativo nem decente



Rouba o pai, rouba a mãe, rouba quem tem

O vício não perdoa é exigente

E um abutre qualquer, se ele é doente

Trata-lhe da saúde e vive bem



Foi atirado à lama pela vida

Está contra ele o mundo inteiro

Enquanto vivo for dará dinheiro

A morte que resolva e que decida



O produto moderno mais corrente

É o crime na rota do Mercado

Meio mundo vive hoje empregado

A traficar droga, armas e gente



O lucro é a meta do Valor

Um deus inamovível e feroz

Que corre noite e dia atrás de nós

Pronto a devorar seja quem for



Lisboa, Outubro de 2008

Leonel Santos

O HOMEM PREDADOR

O HOMEM PREDADOR 


Entrelaça a aranha em qualquer parte

Uma teia simples com destreza e arte

E apesar de tudo subtil e forte

Onde incauta presa encontra a morte

E assim a aranha vai mantendo a vida

 Até que um dia é também comida

E todo o animal, segundo a natureza

É simultaneamente predador e presa

Numa luta perpétua, severa, irracional

Que, apesar de tudo, ainda assim, é natural

Mas onde cada ser se ataca ou se defende

Conforme pode, ou conforme entende

Uma vez que não tem outra saída

Que lhe permita aqui continuar a vida

Assim as águias, nas altaneiras brenhas

Espreitam cá em baixo, as cobras entre as lenhas

Caçando o mourão, o gafanhoto, o rato

Que por sua vez, caçam também no mato

E na selva bruta ninguém é diferente

Comer ou ser comido é simplesmente

Continuar a vida ou ficar sem ela

Por isso é que o leopardo devora a gazela

 E o leão, o lobo, o tigre, o jaguar

 Deixam de viver se não puderem matar

Esta é a Moral da Natureza-mãe

Que o Sistema humano acolheu bem

Mas se o irracional à força bruta

Junta a experiência em prol da luta

 O Predador humano vai muito mais além

Equipado com os dotes racionais que tem

E faz o que jamais alguma besta fez

Que é matar aos milhões de cada vez

E desce mais ainda na sua predação

Matando a própria espécie, enquanto a besta não

 O seu intelecto em vez do elevar

E nobrece a besta por não raciocinar

E este Predador ainda agora

Acaba de aumentar os meios de outrora

Percebendo que a sua linguagem

Lhe podia trazer maior vantagem

 Que além de guerras brutas e sinistras

Podia usar palavras altruístas

E prègar o Bem e a Humanidade

Condições que a besta não tem capacidade

Nem como ele a arte e os motivos

Para comerciar mortos e vivos

 E no topo da cadeia alimentar

Com o queijo e a faca para o cortar

Trocou a palavra Guerra por Defesa

Para enganar assim melhor a presa

E na sua avidez seguiu em frente

Sempre atrás da besta moralmente

 Impondo velhos mitos bafientos

Cobertos na poeira de outros tempos

Quando a espada era a mãe da guerra

E o Sol andava ainda em redor da Terra

Com a teologia estulta e soberana

A jurar-nos que ela era plana

 E que um deus nos via lá do céu estrelado

Com um diabo que foi seu empregado

Falando de milhões de milagres e santos

Que apareciam na Terra por todos os cantos

Gente que morria e que depois de morta

Aparecia por cá batendo à porta

 Foi nesta altura que muitos predadores

Passaram a chamar-se bispos e pastores

Agarrados a reis e a tiramos

E a outros predadores também humanos

Queimando e calando os que disseram

As coisas tal e qual como elas eram

 E que gritam agora contra a depravação

Do Sistema que fizeram com a sua própria mão

Porque os velhos mitos já não trazem oiro

Nem carne de porco, nem chouriço moiro

Nem galinhas gordas, bom vinho e bom pão

Talhas de azeite e meio-alqueires de grão

Presa dum Sistema sem freio e sem medidas

A predação humana é o velho Midas

E as suas presas as peças de um tesoiro

Que dia a dia querem fazer em oiro

Alquimista velho de sonhos infantis

Manipulador boçal de metais vis

Ilusório ente dum sonho passado

Ontem no Trabalho, hoje no Mercado

O Sistema foi sempre o deus da lenda antiga

Com os olhos maiores do que a barriga

Mas ao invés da teia da pequena aranha

Que surpreende e prende a presa que apanha

O Predador humano caiu e se prendeu

No próprio fio da teia que teceu

Cego do Valor e cego da Grandeza

Acabou passando de predador a presa

Presa de ele próprio, caduco e incapaz

De andar em frente ou de voltar atrás

Debate-se agora como um pequeno insecto

 Preso no perverso Valor do seu projecto

Autófago Valor, insano, irracional

Contra o qual agora nada pode e vale

Vendo fugir-lhe a vida e fugir-lhe a espécie

E revoltar-se a Terra onde a Vida cresce

Num rumo abrupto e adverso à Paz

Com o Mercado à frente e a Guerra atrás

Derradeiros e vis escravos do Valor

Que é deveras do Mundo o Predador.

Quem sabe a besta silenciosamente

À noite, lá na selva, não se ri da gente!



Leonel Santos

Lisboa, Setembro 2008

DO FETICHE

DO FETICHE


Aquele fetichismo que fez jus

À sapiência antiga dos tiranos

Dispersa em tempos como luz

Na mente primitiva dos humanos

Ainda nos persegue e nos conduz

Apesar de passados largos anos



Hoje com o nome diferente

De Civilização alta e pomposa

Esse fetiche velho descendente

Dessa era antiga e fabulosa

Nos dirige ainda infelizmente

Na mesma via cega e tortuosa



Se a nossa longa caminhada

Nos parece engenhosa e sapiente

Se usamos a lança e a espada

E temos hoje a bomba-inteligente

No fundo não andamos nada

Só fizemos a morte andar em frente



As bombas que temos e granadas

Os mísseis, a espingarda e o canhão

E outras armas mais sofisticadas

Com que se faz da morte o ganha-pão

São apenas peças destinadas

A pôr o lucro acima da razão



A Civilização que apregoamos

É uma selva densa e insegura

Onde nos vendemos e compramos

Escravos da oferta e da procura

E os próprios braços que ofertamos

Os não quer a nova escravatura



Atolados num Sistema mais impuro

Que o dos próprios seres irracionais

Sem termos passado, e o futuro

Não sabemos se ele existe mais

Gritamos louca mente no escuro

Que somos reis dos outros animais



A África resistente á escravidão

E á humilhação colonial

Sufoca agora á destruição

Á fome e á doença civilizacional

Porque a suposta Civilização

É a fase aguda do seu velho mal



Pelos quatros pontos cardeais

Batida pelos ventos a humana galé

É um barco velho sem leme nem arrais

Sem saber onde vai nem saber quem é

Tentando lobrigar um fabuloso cais

Com a cegueira à proa e o abismo à ré



E se o Mercado tem continuamente

De ultrapassar barreiras e fracassos

Se é preciso haver bastante gente

Para haver consumo e sobram braços

Há sempre uma bomba-inteligente

Para cortar inúteis em pedaços



Neste labirinto a que chamamos vida

Gerida por leis cruas e irracionais

Onde o Valor, fetiche e suicida

É o deus de todos os mortais

Os lucros da miséria, essa enorme ferida

Alimenta na sombra milhões de canibais



Psicólogos pios e padres benfeitores

Almas piedosas da maior pureza

Solidariedades de todas as cores

Agarram a miséria, como agarram a presa

Nas escarpas andinas as garras dos condores

E outras rapaces da mesma natureza



De vez em quando ouvimos falar

Que ardeu um lar com alguns velhinhos

Estava tudo em ordem, mas houve um azar

Ás três da manhã, segundo os vizinhos

Mas nenhum milhafre nos ousou contar

Que os pobres morreram por estar sozinhos



Na vida global do mundo fetichista

O crime é o suporte de toda a estrutura

E a miséria humana dessa longa lista

Tem lobos famintos à sua procura

Com a pele de cordeiro e voz altruísta

Que devoram viva cada criatura



Crianças, velhos, doentes ou drogados

E até os mortos não ficam isentos

O bem fetichista tem olhos dotados

Da visão do lince, e trazem-lhe os ventos

O cheiro dos haveres dos mais desgraçados

Como ao abutre o cheiro dos seus alimentos



Na Justiça, o roubo e a corrupção

Movimentam hoje milhares de milhões

Porém o corrupto é sempre um cidadão

E os que roubam são sempre os ladrões

Mas quer lhe mudem os nomes ou não

O roubo é no Sistema os seus pulmões



O fetichismo impede o pensamento

A não ser em termos de Mercado

Ou em mitos que são seu instrumento

E o Homem é aqui domesticado

Como seja um cavalo ou um jumento

E é chamado depois civilizado



E delapidando a Natureza

Diz-se dela rei, mas antes está

Subordinado à sua realeza

Que é quem lhe permite andar por cá

E em jargão de guerra e de defesa

Ninguém defende ninguém do mal que há



Presa do fetiche e do engano

Onde não entra a luz nem tem acento

A sublime razão que o faz humano

O Homem não tem mais valimento

Antes arrasta o mundo ao caos insano

Quando o mito lhe tolhe o pensamento



Porém, como ente racional

Sempre tem na frente duas vias

Uma que é humana e natural

Outra que excede as bestas mais bravias

E é esta fase aguda e terminal

A do fetiche atroz dos nossos dias



Morto o trabalho e enterrado

Pôs-nos o fetiche a descoberto

Os abissais perigos do Mercado

Inútil é gritarmos no deserto

Se o valor da Razão não for usado

A via da loucura está mais perto.



Leonel Santos

Maio de 2008

A MORTE DO TRABALHO

A MORTE DO TRABALHO

Morreu o trabalho esse deus falho e insolente
Esse gigante, balofo e pedante e já decadente
Que presumia que sempre existia sem cair mais
Na vala da vida, que engole insofrida, os outros mortais
Morreu afinal, deixou de existir, está enterrado
Já não tem mais as honras reais de rei do Mercado

Pai do Valor, foi presa da vida que um dia gerou
À morte que o queria, dizer não podia, agora não vou
Não chamem por ele, não gritem, não chorem, é tempo perdido
Nem é racional, chamar afinal, quem tinha morrido
Matou aos milhões, roubou, explorou, pisou, reprimiu
Em nome dum bem, que o Mundo não tem, nem nunca existiu

Escravizou milhões e milhões sem freio nem medida
Padres e reis, chamaram-lhe as leis sagradas da vida
Nesses bons tempos de altos proventos e mão escrava
Era ele, esse bandalho do bom trabalho que cá mandava
Novos e velhos, jovens, crianças, tudo bulia
Nenhum vivente, nem besta nem gente, fugir-lhe podia

Jurisconsultos sábios e cultos, deram-lhe leis
A bem dos senhores, fidalgos, doutores, padres e reis
Tinha chicotes, tinha garrotes, tinha tiranos
E a quem morria, o céu garantia, direitos humanos
Navios negreiros, zarpavam ligeiros, pejados de gente
Enquanto o padre benzia, essa economia, piedosamente

Porquê tantos suores, tantos labores, se ainda agora
Morto o Trabalho, nenhum enxovalho, se foi embora
A fome e o frio, nada fugiu, tudo é igual
E ainda a guerra, que assola a Terra, é mais brutal
O crime é hoje um negócio, tornado sócio, do mundo inteiro
E a religião rebusca e fareja, um deus que a proteja, chamado dinheiro

O orçamento galopa, a guerra a tropa, se moderniza
Mas, na mira do perigo, o inimigo, se não divisa
Sucede que o bom trabalho, usou de um baralho já viciado
E após morrer levou, com o mal que o matou, Valor e Mercado
Porque o Mercado que o proletariado alimentou
Cedeu à mais-valia da tecnologia que o rejeitou

E sem proletário, o empresário produz a dobrar
Mas sem honorário, o proletário não pode comprar
E então a empresa, tem outra surpresa na produção
Não mais é capaz de vender o que faz … e a solução:
É um sistema de pernas p’ro ar, sem funcionar, onde ninguém
Produz mais Valor, porque o Valor, está morto também.

Leonel Santos
Lisboa, Abril de 2008